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BICHO DE SETE CABEÇAS e O PROFETA DAS CORES

junho 2, 2010

O mês de junho no Benedita Cineclube começa com outra adaptação literária. No próximo sábado, 5 de junho, às 16h será exibido o premiadíssimo filme Bicho de 7 cabeças, de Laís Bodanzky, que em 2007 lançou Chega de Saudade e está em cartaz com As Melhores Coisas do Mundo.

O Profeta das Cores é o curta de Leopoldo Nunes que completa o programa sugerido pela Programadora Brasil.

“Duas histórias que têm em comum o desacerto das relações entre pais e filhos e os caminhos tortuosos que são levados a percorrer. O longa-metragem “Bicho de sete cabeças” é inspirado em fatos reais vividos por Austregésilo Carrano Bueno e contados em seu livro “Canto dos malditos” (1993). Na trama central, o equívoco do pai e da família, que leva o jovem a uma experiência trágica em manicômios. Lançado em 2001, permaneceu oito meses em cartaz nas salas de cinema, atingindo 450 mil espectadores. O documentário “O profeta das cores” – que integrou a pesquisa de Laís Bodanzky para a realização do longa “Bicho de sete cabeças” – conta a história de Antonio Nascimento Silva, cujo destino é ainda mais complicado: 20 anos entre orfanato, juizado, casas de detenção, manicômios. Até ser livre e encontrar na pintura a sua forma de expressar o absurdo da condição humana que sofreu.”

O BICHO DE SETE CABEÇAS, dir. Laís Bodanzky, 2001, ficção, 88 min.

Sinopse

Neto é um jovem estudante de segundo grau de classe média baixa. Ele não suporta a presença do pai. O pai não se interessa pelo mundo do filho. O vazio entre eles cresce a cada dia. A distância é instransponível. A comunicação termina gerando atitudes radicais, que acabarão colocando Neto atrás dos muros de um manicômio.

Ficha Técnica

Direção: Laís Bodanzky
Roteiro: Luiz Bolognesi
Direção de Atores: Sérgio Penna
Elenco: Rodrigo Santoro, Othon Bastos, Cássia Kiss, Jairo Mattos, Caco Ciocler, Luis Miranda, Valéria Alencar,Altair Lima e Linneu Dias, Gero Camilo e Marcos Cesana
Empresa(s) Co-produtora(s): Buriti Filmes; Gullane Filmes; Dezenove Som e Imagem; Fabrica Cinema – Itália
Produção: Sara Silveira e Marco Müller
Produção Executiva: Maria Ionescu e Fabiano Gullane
Direção de Produção: Caio Gullane
Direção Fotografia: Hugo Kovensky
Montagem/Edição: Jacopo Quadri e Letízia Caudullo
Direção de Arte: Marcos Pedroso
Técnico de Som Direto: Romeu Quinto
Edição Som: Silvia Moraes
Trilha musical: André Abujamra / Canções: Arnaldo Antunes / Produção Musical: Pena Schmidt para P.S Prods / Participação Especial : Zeca Baleiro

fotos, prêmios, trailer e outras informações: http://www.bichodesetecabecas.com.br/

O PROFETA DAS CORES, dir. Leopoldo Nunes, 1995, documentário, 28 min

Sinopse

Institucionalizado desde os 3 meses de idade, Antonio da Silva Nascimento passou sua vida em orfanatos, reformatórios, prisões e manicômios, ganhando a liberdade aos 42 anos de idade, após uma reclusão de 17 anos no Manicômio Judiciário de Franco da Rocha. Nas ruas, morando sob pontes e catando papelão, Antonio descobre a pintura. Intitula-se o Profeta das Cores e logo torna-se unanimidade de público e crítica, exorcizando a consciência histórica da civilização em seus golpes coloridos contra telas e muros.

Ficha Técnica

Direção: Leopoldo Nunes
Roteiro: Leopoldo Nunes
Depoimentos: D. Guilhermina da Silva, Daniel Firmino , Prof. Tarcílio , Fernando Marques, Dr. Élio, D. Zenith, Kiko Artesão, Beto – Bettus
Empresa(s) Co-produtora(s): Techné
Direção de Produção: Wagner Carvalho
Direção Fotografia: Cleumo Segond
Montagem/Edição: Reinaldo Volpato
Técnico de Som Direto: Márcio Jacovani
Descrições das Trilhas: Sérgio Basbaum e Ly Sarkis


Crítica
A intolerância que vira loucura – Marcelo Miranda

A urgência da câmera como testemunha dos fatos é a principal característica de linguagem dos dois filmes deste programa – o curta-metragem documental O Profeta das Cores, de Leopoldo Nunes, e a estréia de Laís Bodanzky em longa com a ficção Bicho de Sete Cabeças. Em ambos, temos personagens considerados de exceção na sociedade: no primeiro, o artista plástico saído do manicômio; no outro, o jovem enviado pelo pai a uma clínica de tratamento psiquiátrico depois de ser flagrado como usuário de maconha.
Tanto Nunes quanto Bodanzky tentam expressar angústias e dores através de planos aproximados de cada um deles e daqueles que os rodeiam. Em Bicho de Sete Cabeças, o procedimento é evidente no primeiro “passeio” do protagonista Neto (Rodrigo Santoro) pelo pátio do manicômio onde está confinado. Ali, junto com os olhos de Neto, o espectador toma contato com o ambiente fétido e deprimente, em que o ser humano não parece se diferenciar muito de um animal maltratado. No filme de Nunes, imagem semelhante provoca menos choque, mas existe quase o mesmíssimo movimento de câmera enquadrando internos da clínica no intuito de nos tornar íntimos daquele universo.
A relação de afeto dos realizadores em relação a seus retratados é outra semelhança forte entre os filmes. No Bicho…, especificamente, Bodanzky não julga Neto pelos seus atos, preferindo o registro realista e pouco determinista das ações do rapaz. Se ele passa os horrores que nos chegam via imagens trepidantes e cada vez mais incômodas no jeito como a diretora filma, isso não se deve a um “castigo” imposto a Neto. Sua trajetória depende menos das escolhas da cineasta enquanto instância narrativa do que da autonomia dada aos personagens dentro da realidade do filme. O pai do garoto (Othon Bastos) é mostrado como homem duro e repressivo, mas Bodanzky lhe permite ao menos uma cena de entrega humanista – justamente o último plano do filme, com Neto e o pai sentados numa calçada, absolutamente despedaçados depois de todo o sofrimento.
São instantes como esse que tornam Bicho de Sete Cabeças um trabalho notável. A particularidade de se assumir como filme-denúncia a respeito da situação manicomial no Brasil fica secundária em vista do talento de Bodanzky na construção dessa mesma denúncia. Significa dizer que, acima de querer expor uma situação-limite, a diretora se impõe como cineasta e desenvolve discurso próprio e tipicamente cinematográfico, acreditando, logo de princípio, na força da história enquanto enredo.
A presença de Rodrigo Santoro é fundamental no mergulho de linguagem feito por Bodanzky. O corpo do ator dentro do quadro, e o jeito como Laís o filma, delimitam um trabalho de expressão corporal que transmite, várias vezes sem muitas palavras, os sentimentos de Neto: desobediência quando foge correndo dos gritos do pai portão afora; raiva quando lança para o alto pratos e talheres da clínica; desespero ao ser preso depois de uma tentativa de fuga; desilusão ao tentar se suicidar. Nos movimentos e gestos de Santoro reside a alma de Bicho de Sete Cabeças.

***

Classificação: 14 anos

Sábado, 5/6 às 16h no Espaço Cultural Sinhá Prado – Av. Virgílio de melo Franco, 481 – Cambuquira-MG

Entrada Franca!

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