Posts Tagged ‘junho 2010’

FORUMDOC.MG – 3ª Mostra Itinerante do Filme Documentário e Etnográfico

junho 21, 2010

No próximo fim de semana, Cambuquira recebe o FORUMDOC.MG no Benedita Cineclube!

Sábado e domingo, 26 e 27 de junho, às 16h e 19h. Seguem mais detalhes sobre o festival e a programação em Cambuquira.

Em sua terceira edição, o festival leva parte de sua programação a sete cidades

O forumdoc.mg mostra itinerante do filme documentário e etnográfico – tem como objetivo ampliar e democratizar o acesso a uma programação de cinema diferenciada no estado de Minas Gerais, através da exibição de filmes já exibidos no forumdoc.bh (festival de cinema que acontece anualmente em Belo Horizonte desde 1997) e/ou que fazem parte do acervo da Associação Filmes de Quintal, associação sem fins lucrativos responsável pela realização do projeto.

Sua programação se estende entre os meses de maio e junho de 2010, em sete cidades: Araçuaí, Cambuquira, Contagem, Lagoa Santa, Montes Claros, Pouso Alegre e Uberlândia. Abordando temáticas diversas, os filmes selecionados abordam questões políticas e sociais, ao versar sobre comunidades tradicionais e urbanas, na tentativa de construir junto ao público um amplo diálogo sobre as potências do audiovisual.

O evento, que se encontra em sua terceira edição, conta com o patrocínio da CEMIG/Governo de Minas e da Secretaria de Audiovisual do Ministério da Cultura/Governo Federal, via Lei de Incentivo à Cultura e Fundo Nacional de Cultura. Além disso, conta com a parceria de instituições locais (Irmandade dos Atores da Pândega, Associação Cultural Eu Sou Angoleiro, Cineclube Luz da Lua, MUnA/UFU, UNIMONTES, UNIVÁS, Benedita Cineclube e Cineclube FUNEC).

PROGRAMAÇÃO forumdoc.mg – Cambuquira

26 de Junho, Sábado

16h- BATATINHA, POETA DO SAMBA

Brasil / 2008 / cor / 62′  –  Direção: Marcelo Rabelo

Um dos mais importantes sambistas do Brasil, o baiano Oscar da Penha, o Batatinha (1924 -1997), é visto aqui sob a perspectiva de seus nove filhos. São eles que vão atrás das memórias do pai, investigam a sua vida, história e obra e se encontram com familiares, amigos e músicos. Seus filhos, ao reunir os fragmentos que revelam a história do pai, acabam conhecendo mais sobre ele, estabelecendo também elos fraternais importantes entre a própria família.

19h – HEREMAKONO

Mali, França, Mauritânia | 2002 | cor | 95´  –  Direção: Abderrahmane Sissako

Numa cidadezinha na costa da Mauritânia, garoto e sua mãe aguardam a chance para ir para a Europa. Neste lugar de espera, onde se fala outra língua, o menino tenta decifrar o mundo e as personagens que o rodeiam.

27 de junho, Domingo

16h – A ARQUITETURA DO CORPO / CONFESSIONÁRIO / CAÇANDO CAPIVARA

A Arquitetura do Corpo

Brasil | 2008 | cor | 21′
Direção: Marcos Pimentel


Os bailarinos e suas formas. Suas dores. Seus sonhos…

Caçando Capivara

Brasil | 2009 | cor | 57′

Direção: Derli Maxakali, Marilton Maxakali, Juninha Maxakali, Janaina Maxakali, Fernando Maxakali, Joanina Maxakali, Zé Carlos Maxakali, Bernardo Maxakali, João Duro Maxakali

Caçadores Maxakali saem com seus cães e espíritos aliados em busca da capivara.  Cantos, olhares e eventos. Intensidades que se agitam sob um plano de aparente silêncio.

Confessionário

Brasil, Itália | 2009 | cor | 15′

Direção: Leonardo Sette
O missionário católico Silvano Sabatini relembra sua chegada à área indígena Raposa Serra do Sol, em Roraima, nos anos 50.

19h – CORUMBIARA

Brasil | 2009 | cor | 117′

Direção: Vincent Carelli

Em 1985, o indigenista Marcelo Santos denuncia um massacre de índios na Gleba Corumbiara (RO) e Vincent Carelli filma o que resta das evidências. Bárbaro demais, o caso passa por fantasia, e cai no esquecimento. Ninguém foi responsabilizado pelas torturas que aquelas pessoas sofreram. Corumbiara é um esforço para provar o extermínio dos índios e tentar contato com os remanescentes.

Sobre a Associação Filmes de Quintal

A Associação Filmes de Quintal é uma entidade sem fins lucrativos e tem suas ações voltadas à promoção cultural através de atividades de divulgação, pesquisa, reflexão, fomento e produção em audiovisual. Com sede em Belo Horizonte, a Filmes de Quintal possui ampla experiência na produção de mostras cinematográficas e na realização de oficinas de audiovisual.

Criada em 1999, a Associação Filmes de Quintal foi fruto da reunião de pesquisadores, professores e estudantes dos cursos de Comunicação Social, Filosofia e Antropologia, entre outras áreas, para oficializar a criação do Festival do Filme Documentário e Etnográfico – forumdoc.bh – que já acontecia desde 1997, graças ao esforço pessoal dos fundadores da Associação.

Sobre o forumdoc.bh

O forumdoc.bh é um festival de cinema e vídeo dedicado ao documentário e a filmes que não têm espaço no circuito de exibição comercial. O evento acontece em Belo Horizonte desde 1997, com treze edições consecutivas. Em sua programação, o forumdoc.bh apresenta um panorama de produções audiovisuais diversificado, disponibilizando ao público filmes de vários países, produções contemporâneas e filmes clássicos. Realiza, ainda, as mostras competitivas nacional e internacional com o objetivo de mapear, difundir e premiar a produção documentária recente.

Promovendo mesas redondas, sessões fílmicas comentadas, oficinas, lançamentos de publicações como catálogos, revistas, livros e cd-roms especializados, o forumdoc.bh tem possibilitado o intercâmbio de experiências, visando o fomento à pesquisa, experimentação e qualificação da produção.

Todas as atividades que compõem a programação têm caráter público e gratuito, o que garante o acesso e divulgação de bens culturais.

Entrada Franca

Local: Espaço Cultural Sinhá Prado – Av. Virgílio de Melo Franco, nº 481, Cambuquira – MG

Realização: Associação Filmes de Quintal

Participação: Benedita Cineclube e Associação Comunitária Educacional e Cultural Sinhá Prado Guimarães

Patrocínio:

CEMIG – Governo do Estado de Minas Gerais

Secretaria do Audiovisual

Fundo Nacional de Cultura

Ministério da Cultura

Contato:

Associação Filmes de Quintal / (31) 3889-1997

www.filmesdequintal.org.br / filmes@filmesdequintal.org.br

Anúncios

GAROTO CÓSMICO, de Alê Abreu

junho 16, 2010

A próxima sessão no Benedita Cineclube é dedicada às crianças.

Sábado, 19/6, às 4 da tarde será exibido GAROTO CÓSMICO (2007), ótimo longa de animação infantil de Alê Abreu.

“O longa de estréia de Alê Abreu prende a platéia, tenha ela dente de leite ou dentadura.”
O GLOBO
* * * *

“Cinema para criança com responsabilidade pedagógica, carinho artístico e inteligência.”
DIÁRIO DE PERNAMBUCO
* * * *

“Animação brasileira surpreende ao investir em tom humanista.”
“Nestas férias, Garoto Cósmico chega a tempo de salvar o Verão”
FOLHA DE S.PAULO
* * *

“Nossa aventura barroco-científica.”
ESTADO DE S.PAULO
* * *

“Um trabalho quase artesanal para ressaltar uma história em que os artistas circenses são heróis na luta contra um planeta sem alma, mecânico e padronizado.”
CORREIO BRASILIENSE
* * *

“Garoto Cósmico é prova inquestionável de que há talento nacional disponível para o desenvolvimento de grandes filmes de animação por aqui.”
OMELETE
* * * *

Sinopse

Cósmico, Luna e Maninho são crianças de um mundo futurista, onde as vidas são totalmente programadas. Certa noite, buscando mais pontos para obterem um bônus na escola, os três perdem-se no espaço e descobrem um universo infinito,  esquecido num pequeno circo. Depois de muita brincadeira e tantas novas experiências, o mundo da programação envia um representante especial para resgatá-los. É hora de escolherem seus próprios caminhos.

Trailer

Equipe Técnica

Direção: Alê Abreu

Produção executiva: Lia Nunes

Elenco / Vozes

Cósmico: Aleph Naldi

Luna: Bianca Rayen

Maninho: Mateus Duarte

Giramundos: Raul Cortez

Já-Já: Wellington Nogueira

Capitão Programação: Márcio Seixas

Bailarina: Vanessa da Mata

Záz-Tráz: Belchior

Bola: Melina Anthis

Perna: Gustavo Kurlat

Apresentadora Space TV: Vera Villela

Bicho: Marcelo Autuori

Cantores abertura e encerramento

Adriana Capparelli

Eduardo Leão

Sérgio Rufino

Participação especial

Arnaldo Antunes

Roteiro: Alê Abreu, Sabina Anzuategui, Daniel Chaia, Gustavo Kurlat

Músicas e letras: Gustavo Kurlat

Edição de som: Ricardo Reis e Miriam Biderman

Montagem: Cristina Amaral

Produção musical: Ruben Feffer e Renato Lemos

Animação: Alê Abreu

Assistente de animação: Daniel Pudles

Assistente de animação digital: Priscilla Kellen

Intervalação: Daniel Pudles, Midori Sato e Priscilla Kellen

Assistentes: Orlando Cappi Closs e Jorge Zugliani

Animação 3D: Gilberto Caserta

Arte final: Marília Nunes e Taís Rios

Cenários: Alê Abreu

Leitura de som: Maurício Mendes e Drika Ooki

Coordenação de lip sync: Midori Sato

Lip Sync: Alexandre Barreto, Drika Ooki e Marília Nunes

Produtora de elenco: Paula Pretta

Preparação de elenco infantil: Fabiana Prado

Mixagem: Álamo

Laboratório de imagem: MegaColor

O Benedita Cineclube acontece no Espaço Cultural Sinhá Prado – Av. Virgílio de Melo Franco, 481 – Cambuquira-MG.

GAROTO CÓSMICO – sáb, 19/6, 16h – classificação livre.

Entrada gratuita.


TERRA ESTRANGEIRA, de Walter Salles e Daniela Thomas

junho 9, 2010

Terra Estrangeira é o próximo filme a ser exibido no Benedita Cineclube.

Sábado, 12/6 às 18h (novo horário!).

Terra Estrangeira é um filme cheio de sotaques,  não apenas lingüísticos, mas também cinematográficos. No princípio, é um drama naturalista centrado no cotidiano das personagens. Aos poucos evolui para o inferno existencial, na medida em que Paco e Alex se deslocam de suas bases. Mas de repente é um filme de gangster, e logo em seguida um road movie romântico e desesperado à maneira de Nicholas Ray. Todas essas “línguas” se encontram apenas no estilo sofisticado e coeso de enquadrar, iluminar e montar as imagens.” Carlos Alberto Mattos (crítica na íntegra no final deste post).

No início da década de 90, Fernando Collor, primeiro Presidente eleito pelo voto popular depois de 25 anos de regime de exceção, inicia seu governo promovendo o Plano Brasil Novo (conjunto de medidas para o combate da inflação). Os efeitos dessa política econômica são o ponto de partida de ” Terra Estrangeira” , filme de Walter Salles e Daniela Thomas. As perspectivas de um futuro incerto levava centenas de brasileiros a procurar uma única saída para a crise nacional, o aeroporto. E este foi o caminho que Paco, personagem de estréia de Fernando Alves Pinto, percorreu. Após o anúncio do Plano Collor ele vê a vida de sua mãe, Manoela, uma costureira espanhola que sonha em rever sua terra natal , destruída e, sem dinheiro, aceita entregar um pacote misterioso em Lisboa em troca do custeio de sua viagem. Ele perde a remessa e segue em fuga para a Espanha. Como que condenado a um constante deslocamento e sem qualquer esperança, o personagem de Paco permanece à deriva. Um exemplo perfeito dos orfãos de uma nação que aparentemente nunca irá acolhê-los. A trilha sonora de José Miguel Wisnick e a belíssima fotografia em preto e branco de Walter Carvalho contribuem para o clima noir que percorre todo o filme.

Sinopse

Brasil, 1990. Plano Collor é anunciado. Sem perspectiva em um país tomado pelo caos, Paco, um jovem de 20 anos de i dade, opta pelo exílio após a morte da mãe. Parte para Portugal, aceitando uma encomenda suspeita para a viagem. Em Lisboa, Alex, uma brasileira de 25 anos, acaba de deixar o namorado, envolvido na mesma teia de contrabando. Os destinos desses dosi jovens vão se aproximar, inexoravelmente, numa fuga desesperada…

Ficha Técnica

Direção: Walter Salles
Roteiro: Daniela Thomas, Walter Salles, Marcos Bernstein e Millôr Fernades
Elenco: Fernanda Torres, Fernando Alves Pinto, Luis Melo, Alexandre Borges, Laura Cardoso, João Lagarto, José Laplaine, João Grosso, Canto e Castro, Miguel Guilherme, Carlos Santos, Isilda Marques, Angelo Torres, José Antonio Pires, Miguel Hurst, Antônio Cara Dïanjo, Álvaro Livin, Felipe Ferrer, João Oliver, Alberto Alexandre, Manuel Mendes, Laert Sarrumor Sarrumor, Jaques Jover, Carlos Dias, Lulu Pavarini, Carla Lupi Lupi, D. Tina, Di Domênico, Miguel Athie, Pérsio Pisani, Mariana Lima, Joaquim Goulart, Cacá Ribeiro, Ludoval Campos, Gisela Arantes, Sonia Schulb, Geraldo Mário, Paulo Simões, Alberto Fuks, Eduardo Capozzi, Milah Ribeiro, José Paulo Rosa, Participação especial: Tcheky Karyo, Beth Coelho, Gerald Thomas, Edilson Botelho.” D. Tina, Di Domênico, Miguel Athie, Pérsio Pisani, Mariana Lima, Joaquim Goulart, Cacá Ribeiro, Ludoval Campos, Gisela Arantes, Sonia Schulb, Geraldo Mário, Paulo Simões, Alberto Fuks, Eduardo Capozzi, Milah Ribeiro, José Paulo Rosa, Participação especial: Tcheky Karyo, Beth Coelho, Gerald Thomas, Edilson Botelho.
Empresa(s) Co-produtora(s): Videofilmes e Animatógrafo
Produção Executiva: Flavio R. Tambellini
Direção de Produção: Maria João Mayer (Portugal) e Afonso Coaracy(Brasil)
Coordenação de Produção: Maria Carlota Fernandes e Marina Meireles
Assistente de Produção: Wellington Machado, Isabel Monteiro e Pedro Teixeira
Direção Fotografia: Walter Carvalho
Montagem/Edição: Walter Salles e Felipe Lacerda
Direção de Arte: Daniela Thomas
Técnico de Som Direto: Geraldo Ribeiro (BR), Carlos Alberto Lopes (Portugal)
Edição Som: José Luiz Sasso
Trilha Musical: José Miguel Wisnik

Prêmios

-Grande Prêmio do Público no Paris Internacional Film Forum, 1995 – FR.
-Prêmio APCA, 1995, SP, de Melhor filme.
-Melhor filme no Festival de Gramado, 23, 1995, RS.
-Margarida de Prata, 1996, RJ, da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil de Melhor Filme Nacional.
-Grande Prêmio do Público e Prêmio Especial do Júri no Festival de Belfort – FR.
-Grande Prêmio de Público no Festival de Bérgamo – IT.
-Karibu Award no Cinema Novo Festival – BE.
-Câmera de Prata no International Film Camara Festival – MK.
-Melhor Roteiro no Festival de Providence – US.
-Melhor Filme Ibero-Americano no Festival Cinematográfico Internacional do Uruguai – UY.

Crítica

Exílio na terra do cinema por Carlos Alberto Mattos

Quando Terra Estrangeira foi realizado, o Brasil estava sem cinema e sem “pai”. Tomava o país uma sensação de orfandade, de barco à deriva. Tínhamos virado uma nação de emigrantes, porto de saída para um exílio que não era mais o político da ditadura, mas o do desencanto de almas perdidas e sonhos adiados. Walter Salles e Daniela Thomas, depois de morarem no exterior, faziam o caminho inverso: fixavam carreira no Brasil e partiam em busca de uma identidade para o cinema brasileiro. Fizeram um filme sobre e contra o vácuo.

A relação com Portugal e Espanha, matrizes colonizadoras, sinaliza esse desejo contraditório de evasão rumo às origens. Alex e Paco saem em busca de si mesmos e encontram a terra do cinema, esse fim-de-mundo sem raízes onde se pode deslizar à vontade e trocar de gênero como quem troca de estrada. Eles são crianças que saem de casa para brincar de adultos no país do cinema, empunhar armas, correr perigo e fazer poesia ao mesmo tempo. Em lugar da clássica rebeldia, apenas o abandono, uma vaga disposição para “enfrentar a ira do trovão”. Igualados em suas perdas e na sensação de não pertencer a lugar nenhum, Paco e Alex têm o movimento contínuo como único destino. São puro cinema, sem lenço nem passaporte.

Terra Estrangeira é um filme cheio de sotaques, não apenas lingüísticos, mas também cinematográficos. No princípio, é um drama naturalista centrado no cotidiano das personagens. Aos poucos evolui para o inferno existencial, na medida em que Paco e Alex se deslocam de suas bases. Mas de repente é um filme de gangster, e logo em seguida um road movie romântico e desesperado à maneira de Nicholas Ray. Todas essas “línguas” se encontram apenas no estilo sofisticado e coeso de enquadrar, iluminar e montar as imagens.

Com seus sotaques ora de teatro, ora de videoarte, ora do neo-noir pós-moderno, Terra Estrangeira ajudou a tornar o cinema brasileiro mais contemporâneo em sua época. Ao discurso nacional-popular do Cinema Novo contrapôs uma novíssima pauta internacional-fina sem, contudo, abdicar da reflexão sobre a condição brasileira. Enquanto o termo “terra” evocava uma constante em filmes de Glauber Rocha, o adjetivo “estrangeira” apontava para as idéias de exílio, alteridade e globalização.

O filme antecipou elementos que se tornariam freqüentes na obra de Walter Salles. Entre eles, a ausência do pai, a inversão da imagem da Pietá (que voltará em Central do Brasil), a estrutura do road movie e a presença simbólica do mar e da água (O Primeiro Dia, Abril Despedaçado, Diários de Motocicleta, Água Negra).

Apesar do desfecho trágico, a noção de redenção tampouco está ausente, aqui sob a forma de uma crescente aproximação entre Brasil e Portugal. Esses espaços, inicialmente confinados por letreiros, vão perdendo distância pelas justaposições da montagem, a música do violino e imagens poéticas como a das fotos “navegando” na água do banheiro. É por meio da linguagem do cinema que Terra Estrangeira reconstrói pontes e sutura o vácuo.

O Benedita Cineclube acontece no Espaço Cultural Sinhá Prado – Av. Virgílio de Melo Franco, 481 – Cambuquira-MG.

Terra Estrangeira – sáb, 12/6, 18h – classificação 16 anos.

Entrada gratuita.



BICHO DE SETE CABEÇAS e O PROFETA DAS CORES

junho 2, 2010

O mês de junho no Benedita Cineclube começa com outra adaptação literária. No próximo sábado, 5 de junho, às 16h será exibido o premiadíssimo filme Bicho de 7 cabeças, de Laís Bodanzky, que em 2007 lançou Chega de Saudade e está em cartaz com As Melhores Coisas do Mundo.

O Profeta das Cores é o curta de Leopoldo Nunes que completa o programa sugerido pela Programadora Brasil.

“Duas histórias que têm em comum o desacerto das relações entre pais e filhos e os caminhos tortuosos que são levados a percorrer. O longa-metragem “Bicho de sete cabeças” é inspirado em fatos reais vividos por Austregésilo Carrano Bueno e contados em seu livro “Canto dos malditos” (1993). Na trama central, o equívoco do pai e da família, que leva o jovem a uma experiência trágica em manicômios. Lançado em 2001, permaneceu oito meses em cartaz nas salas de cinema, atingindo 450 mil espectadores. O documentário “O profeta das cores” – que integrou a pesquisa de Laís Bodanzky para a realização do longa “Bicho de sete cabeças” – conta a história de Antonio Nascimento Silva, cujo destino é ainda mais complicado: 20 anos entre orfanato, juizado, casas de detenção, manicômios. Até ser livre e encontrar na pintura a sua forma de expressar o absurdo da condição humana que sofreu.”

O BICHO DE SETE CABEÇAS, dir. Laís Bodanzky, 2001, ficção, 88 min.

Sinopse

Neto é um jovem estudante de segundo grau de classe média baixa. Ele não suporta a presença do pai. O pai não se interessa pelo mundo do filho. O vazio entre eles cresce a cada dia. A distância é instransponível. A comunicação termina gerando atitudes radicais, que acabarão colocando Neto atrás dos muros de um manicômio.

Ficha Técnica

Direção: Laís Bodanzky
Roteiro: Luiz Bolognesi
Direção de Atores: Sérgio Penna
Elenco: Rodrigo Santoro, Othon Bastos, Cássia Kiss, Jairo Mattos, Caco Ciocler, Luis Miranda, Valéria Alencar,Altair Lima e Linneu Dias, Gero Camilo e Marcos Cesana
Empresa(s) Co-produtora(s): Buriti Filmes; Gullane Filmes; Dezenove Som e Imagem; Fabrica Cinema – Itália
Produção: Sara Silveira e Marco Müller
Produção Executiva: Maria Ionescu e Fabiano Gullane
Direção de Produção: Caio Gullane
Direção Fotografia: Hugo Kovensky
Montagem/Edição: Jacopo Quadri e Letízia Caudullo
Direção de Arte: Marcos Pedroso
Técnico de Som Direto: Romeu Quinto
Edição Som: Silvia Moraes
Trilha musical: André Abujamra / Canções: Arnaldo Antunes / Produção Musical: Pena Schmidt para P.S Prods / Participação Especial : Zeca Baleiro

fotos, prêmios, trailer e outras informações: http://www.bichodesetecabecas.com.br/

O PROFETA DAS CORES, dir. Leopoldo Nunes, 1995, documentário, 28 min

Sinopse

Institucionalizado desde os 3 meses de idade, Antonio da Silva Nascimento passou sua vida em orfanatos, reformatórios, prisões e manicômios, ganhando a liberdade aos 42 anos de idade, após uma reclusão de 17 anos no Manicômio Judiciário de Franco da Rocha. Nas ruas, morando sob pontes e catando papelão, Antonio descobre a pintura. Intitula-se o Profeta das Cores e logo torna-se unanimidade de público e crítica, exorcizando a consciência histórica da civilização em seus golpes coloridos contra telas e muros.

Ficha Técnica

Direção: Leopoldo Nunes
Roteiro: Leopoldo Nunes
Depoimentos: D. Guilhermina da Silva, Daniel Firmino , Prof. Tarcílio , Fernando Marques, Dr. Élio, D. Zenith, Kiko Artesão, Beto – Bettus
Empresa(s) Co-produtora(s): Techné
Direção de Produção: Wagner Carvalho
Direção Fotografia: Cleumo Segond
Montagem/Edição: Reinaldo Volpato
Técnico de Som Direto: Márcio Jacovani
Descrições das Trilhas: Sérgio Basbaum e Ly Sarkis


Crítica
A intolerância que vira loucura – Marcelo Miranda

A urgência da câmera como testemunha dos fatos é a principal característica de linguagem dos dois filmes deste programa – o curta-metragem documental O Profeta das Cores, de Leopoldo Nunes, e a estréia de Laís Bodanzky em longa com a ficção Bicho de Sete Cabeças. Em ambos, temos personagens considerados de exceção na sociedade: no primeiro, o artista plástico saído do manicômio; no outro, o jovem enviado pelo pai a uma clínica de tratamento psiquiátrico depois de ser flagrado como usuário de maconha.
Tanto Nunes quanto Bodanzky tentam expressar angústias e dores através de planos aproximados de cada um deles e daqueles que os rodeiam. Em Bicho de Sete Cabeças, o procedimento é evidente no primeiro “passeio” do protagonista Neto (Rodrigo Santoro) pelo pátio do manicômio onde está confinado. Ali, junto com os olhos de Neto, o espectador toma contato com o ambiente fétido e deprimente, em que o ser humano não parece se diferenciar muito de um animal maltratado. No filme de Nunes, imagem semelhante provoca menos choque, mas existe quase o mesmíssimo movimento de câmera enquadrando internos da clínica no intuito de nos tornar íntimos daquele universo.
A relação de afeto dos realizadores em relação a seus retratados é outra semelhança forte entre os filmes. No Bicho…, especificamente, Bodanzky não julga Neto pelos seus atos, preferindo o registro realista e pouco determinista das ações do rapaz. Se ele passa os horrores que nos chegam via imagens trepidantes e cada vez mais incômodas no jeito como a diretora filma, isso não se deve a um “castigo” imposto a Neto. Sua trajetória depende menos das escolhas da cineasta enquanto instância narrativa do que da autonomia dada aos personagens dentro da realidade do filme. O pai do garoto (Othon Bastos) é mostrado como homem duro e repressivo, mas Bodanzky lhe permite ao menos uma cena de entrega humanista – justamente o último plano do filme, com Neto e o pai sentados numa calçada, absolutamente despedaçados depois de todo o sofrimento.
São instantes como esse que tornam Bicho de Sete Cabeças um trabalho notável. A particularidade de se assumir como filme-denúncia a respeito da situação manicomial no Brasil fica secundária em vista do talento de Bodanzky na construção dessa mesma denúncia. Significa dizer que, acima de querer expor uma situação-limite, a diretora se impõe como cineasta e desenvolve discurso próprio e tipicamente cinematográfico, acreditando, logo de princípio, na força da história enquanto enredo.
A presença de Rodrigo Santoro é fundamental no mergulho de linguagem feito por Bodanzky. O corpo do ator dentro do quadro, e o jeito como Laís o filma, delimitam um trabalho de expressão corporal que transmite, várias vezes sem muitas palavras, os sentimentos de Neto: desobediência quando foge correndo dos gritos do pai portão afora; raiva quando lança para o alto pratos e talheres da clínica; desespero ao ser preso depois de uma tentativa de fuga; desilusão ao tentar se suicidar. Nos movimentos e gestos de Santoro reside a alma de Bicho de Sete Cabeças.

***

Classificação: 14 anos

Sábado, 5/6 às 16h no Espaço Cultural Sinhá Prado – Av. Virgílio de melo Franco, 481 – Cambuquira-MG

Entrada Franca!