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VIDA DE MENINA, dir. Helena Solberg, BRASIL-RJ, 2005

maio 6, 2010

No próximo sábado, 8 de maio, às 16h00 o Benedita Cineclube exibe VIDA DE MENINA, de Helena Solberg. Classificação livre.

O longa-metragem é uma adaptação dos diários de Helena Morley, pseudônimo de Alice Dayrell Caldeira Brant. Sob a perspectiva dessa menina de 13 anos, o filme exibe um panorama intimista da vida cultural e familiar da cidade de Diamantina em seu período de decadência econômica nos fins do século XIX. Sentimental, mas sem concessões à pieguice, Vida de menina não é apenas um grande filme de época, repleto de cenas marcantes e bem realizadas, mas também o resgate de uma importante obra literária que encantou personalidades como Guimarães Rosa e Elizabeth Bishop.

Vida de menina acompanha três anos (1893-1895) da vida da adolescente Helena, em um momento crítico de sua vida, quando começa a lutar para conquistar sua liberdade e integridade. Tendo como pano de fundo um Brasil que acaba de abolir a escravatura e proclamar a República, a jovem começa a escrever o seu diário, revelando seu universo e um país que adolesce junto com ela. É nesse diário que Helena debocha e desmascara as pretensas virtudes alheias, procurando não perder sua alegria infantil de viver e reinventando o mundo à sua maneira.

TRAILER

CRÍTICA

Questionando um país jovem e contraditório

por Neusa Barbosa

A crônica cotidiana de um país que acaba de proclamar a República mas disfarça mal a opressão de sua grande população negra, apesar da abolição formal da escravidão, salta das páginas do diário de Helena Morley, pseudônimo literário de Alice Dayrell Caldeira Brant, que é a protagonista por trás do livro Minha vida de menina – O diário de Helena Morley (Companhia das Letras, 1998). Escrito entre 1893 e 1895, e admirado por escritores como Guimarães Rosa e Carlos Drummond de Andrade, o texto inspira Vida de menina, primeiro filme de ficção da documentarista Helena Solberg, que tão criativamente radiografou a figura de Carmem Miranda em Bananas is my business (1995).
Quase 110 anos transcorreram entre a escritura do livro, publicado pela primeira vez em 1942, e o filme de 2004, que traduz a notável permanência de tantos dilemas da adolescência e da condição feminina, independente de tempo e lugar. A menina Helena revela-se uma contestadora cujo espírito a Diamantina provinciana, carola, isolada, moralista e decadente de sua época não conseguem aprisionar.
No contexto de um país em transição naquele final do século 19, aparentemente nada acontecia na cidade mineira, tão ignorante da recente descoberta do cinema quanto da Teoria da Evolução de Charles Darwin. A modorra reflete o esgotamento da mineração de ouro e diamantes, que já garantira a riqueza da região, mas que agora decreta a falência de Alexander Morley (Dalton Vigh), o pai da menina, obcecado em extrair ainda algum resultado de uma lavra estéril.
Na resignação silenciosa da mãe, Carolina (Daniela Escobar), a essa insana obstinação do marido e também ao domínio do irmão Geraldo (Camilo Bevilácqua) nos negócios da família materna, Helena flagra a posição subalterna das mulheres, de que ela intuitivamente se ressente. Como também identifica as contradições que cercam a posição social dos negros em seu ambiente. Ex-escravos, eles continuam agregados na grande casa da avó, Teodora (Maria de Sá), nominalmente livres, mas cidadãos de segunda classe, até espiritualmente. O pai de Helena garante-lhe que, depois da morte, ela não irá para o “céu dos africanos”. Em sua visão, a separação por raças contamina a alma e prossegue, irredimível como um pecado original, até depois da vida.
Um Brasil jovem e contraditório, encharcado dessas violências sociais e conflitos nunca resolvidos, encontra eco nessa menina se tornando mulher, que a tudo olha com curiosidade, acumulando em seu diário não observações sociológicas, certamente, mas reflexões sinceras de um coração descompromissado que anunciam uma pré-feminista. Um diário que é, aliás, uma espécie de antecipação do blog atual, território que tem se mostrado apto a essa mesma espontaneidade juvenil.
A própria herança cultural inglesa – Helena é neta de um médico britânico – torna-se para ela outro foco de desequilíbrio e choque. As lições de etiqueta da tia Madge (Loló Souza Pinto), e suas instruções de como andar pelas ruas de terra batida portando uma sombrinha para evitar o sol, reforçam o sentimento de inadequação. E são também um retrato vivo do confronto entre uma cultura europeia resistente a abrir mão de seus preconceitos e penduricalhos e o desconfiado despojamento caipira do Brasil rural de mais de um século atrás.

 

FICHA TÉCNICA

Direção: Helena Solberg
Roteiro: Elena Soárez, Helena Solberg
Elenco: Ludmila Dayer, Daniela Escobar, Dalton Vigh, Camilo Bevilacqua, Lígia Cortes, Maria de Sá, Lolô Souza Pinto, Benjamin Abras, Luciano Luppi
Empresa Produtora: Radiante Filmes Ltda.
Produção: David Meyer
Produção Executiva: David Meyer
Direção de Produção: Marcelo Ferrarini
Direção Fotografia: Pedro Farkas
Operador de Câmera: Rodrigo Toledo
Iluminador: Pedro Farkas
Fotografia de Cena : Beatriz Perrella
Montagem/Edição: Diana Vasconcellos
Estúdio Montagem/Edição: Afinal Filmes
Direção de Arte: Roberto Mainieri
Cenografia: Roberto Mainieri
Figurino: Marjorie Gueller
Produção de Arte: Luciana Lamounier
Maquiagem: Lu de Moraes
Cabeleireiro: Bob Paulino
Técnico de Som Direto: Paulo Ricardo Nunes
Edição Som: Filmosonido
Mixagem: Filmosonido
Estúdio Som: Filmosonido
Autor da Trilha: Wagner Tiso
Descrições das Trilhas: Panis Agelicus, Jardim Secreto, Flor do céu Biribiri, Luizinha, Carnaval e Castelos, Sinos, Laschia qu’io Pianga (Handel), É a ti, flor do céu

Fonte: Programadora Brasil

DURVAL DISCOS dir. Anna Muylaert, BRASIL, 2002

abril 14, 2010

17 de abril no Benedita Cineclube

SINOPSE

Solteirão, com jeitão de hippie, tem uma loja de discos e ainda mora com a mãe. Com a chegada do CD, recusa-se a vendê-los, mantendo-se fiel ao vinil. O inesperado aparecimento de uma menina mudará para sempre as vidas de Durval e de sua mãe dominadora, mostrando que tudo na vida tem um lado A e um lado B, como nos LPs.

Ficha Técnica

Direção e roteiro: Anna Muylaert
Elenco: Ary França, Etty Fraser, Mariza Orth, Isabela Guasco, Letícia Sabatella, Rita Lee
Empresa Produtora: Dezenove Som e Imagens e África Filmes
Produção Executiva: Sara Silveira e Maria Ionescu
Direção de Produção: Caio Gullane
Direção Fotografia: Jacob Solitrenick
Montagem/Edição: Vânia Debs
Direção de Arte: Ana Mara Abreu
Figurino: Marisa Guimarães
Técnico de Som Direto: Romeu Quinto e Geraldo Ribeiro
Edição Som: Miriam Biderman
Mixagem: Jose Luiz Sasso
Trilha Musical: André Abujamra.

TRAILER

MAKING OF

Houve Uma Vez Dois Verões e O Diário Aberto de R.

março 15, 2010

Os filmes da próxima sessão do Benedita Cineclube (sáb, 20/3, 16h) são Houve Uma Vez Dois Verões, e O Diário Aberto de R.

Houve Uma Vez Dois Verões é o longa-metragem de estréia de Jorge Furtado, cineasta gaúcho que além de vários curtas de destaque nos anos 80 e 90, dirigiu também O Homem Que Copiava (2003), Meu Tio Matou Um Cara (2004) e Saneamento Básico, o filme (2007).

Assista no site porta curtas o seu curta-metragem mais premiado

Ilha das Flores, Jorge Furtado, Doc/Exp, 1989, 13 min

http://www.portacurtas.com.br/pop_160.asp?cod=647&Exib=1

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Houve uma Vez Dois Verões, de Jorge Furtado

BRASIL – RS, 2002, ficção, 75 min. – classificação 12 anos

SINOPSE

Ele é um rapaz ingênuo em busca do primeiro amor. Ela está guardando dinheiro para viajar para a Austrália.

Juntos, eles vão viver uma grande paixão. Se você acredita na força do destino, no poder do amor e nas sinopses dos filmes, vai ter algumas surpresas.

Direção: Jorge Furtado
Roteiro: Jorge Furtado
Empresa(s) Co-produtora(s): Casa de Cinema de Porto Alegre
Produção Executiva: Luciana Tomasi e Eleonora Goulart
Direção de Produção: Marco Baioto e Débora Peters
Direção Fotografia: Alex Sernambi
Montagem/Edição: Giba Assis Brasil
Direção de Arte: Pierre Olivè
Figurino: Rô Cortinhas
Técnico de Som Direto: Cristiano Scherer
Edição Som: Cristiano Scherer
Mixagem: Luiz Adelmo
Trilha Musical: Sim
Trilha Original: Não
Descrições das Trilhas: Trilha Musical: Leo Henkin

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Caetano Gotardo é um jovem cineasta paulista. Entre este e outros trabalhos, pode-se destacar o curta Areia, por ter sido exibido na abertura da Semana da Crítica/Festival de Cannes em 2008.

O Diário Aberto de R., de Caetano Gotardo

dir. Caetano Gotardo, BRASIL – SP, 2005, ficção, 14 min. – classificação 10 anos.

SINOPSE

Rafael dorme. Rafael espera. Rafael abraça. Rafael deita. Rafael chora.

Direção: Caetano Gotardo
Roteiro: Caetano Gotardo
Elenco: Fábio Lucindo, Marco Pigossi, Thays Alves, Gustavo Nobre, Lilian Blanc
Produção Executiva: Marco Dutra
Direção de Produção: Marco Dutra
Direção Fotografia: Chica San Martin
Fotografia de Cena: Não
Direção de Arte: Milena Durante
Figurino: Milena Durante
Técnico de Som Direto: Daniel Turini
Sound Designer: Daniel Turini
Trilha Musical: Não
Trilha Original: Não
Descrições das Trilhas: Robert Schumann Interprete: Marco Dutra

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sobre a sessão de 20/3

CRÍTICA

CORAÇÕES JOVENS E TRANQÜILOS, por Rodrigo de Oliveira

Os adolescentes no centro de Houve uma vez dois verões e O diário aberto de R. dividem uma mesma crença. E faz tanto sentido que sejam justo adolescentes, todos eles a um passo daquela experiência definitiva que torna a infância mais distante e a vida adulta tão inevitavelmente mais próxima. Não só Chico e Caio, os dois protagonistas, mas também seus diretores, Jorge Furtado e Caetano Gotardo, parecem acreditar nessa mesma coisa, e devotam seus filmes a defendê-la. Isso que só a sinceridade de quem está vivendo tudo pela primeira vez pode redimir de qualquer ridículo, em tempos tão descrentes como os atuais. Temos aqui dois filmes de amor, e que dele fazem sua profissão de fé.

A ameaça da desafeição, esse mal tão contemporâneo, não poderia passar ao largo. Ela é, em graus diferentes, a grande força-motora dos filmes. Em O diário aberto de R., estamos lidando com a distância mantida entre dois amigos colegiais, capazes de demonstrar carinho num dia, e no seguinte se tratarem com um quase repúdio. Houve uma vez dois verões é mais explícito, e planta no meio de seu romance uma figura anti-romântica por excelência, aquela que troca sonhos de felicidade por dinheiro, conseguido com uma falsa gravidez. Roza agrega ao filme valores insuspeitos nesta que parecia a história de amadurecimento de Chico através de um primeiro amor. Onde havia a lua encantadoramente fake, iluminando a primeira transa na praia, sobra a mercantilização do sentimento. A resposta a esses revezes precisa ter força igual ou maior. Aí entram esses dois diretores apaixonados: por seus personagens e pela própria idéia da resistência do sentimento.

Talvez não exista paralelo no cinema brasileiro de um filme que tenha sabido captar tão bem os humores da adolescência como Houve uma vez dois verões. Vai ver porque não capte mesmo – e sob essa idéia de se conseguir “pescar a juventude” se tenham feito tantos filmes sobre seu protótipo, cheias de clichês emocionais e gírias de almanaque. Furtado faz seu primeiro longa-metragem deixar de ser veículo e passar a ser, ele próprio, uma manifestação da juventude. Isso está expresso desde a escolha do suporte de gravação, o vídeo digital (mídia ainda menina em relação à velha película). Mais que isso, na incorporação do repertório visual dos fliperamas e pinballs, que dão o tom desse jogo de erros-e-acertos em que se transforma a jornada de Chico atrás da garota que lhe extorquiu, mas por quem não consegue evitar “gostar um monte”. Até mesmo a belíssima trilha sonora do filme parece vir dos temas desses joguinhos, dando um tratamento harmônico a sua habitual barulheira.

Tudo ali está armado para que os jovens possam acontecer enquanto tais, sem qualquer freio a seu despertar para a vida. O curta-metragem do igualmente jovem Caetano Gotardo abriga uma ambigüidade bastante curiosa neste sentido, equilibrando a experiência íntima de um diário que é, no entanto, mantido abertamente por Caio, com suas confidências sendo escritas na carteira da sala de aula, ao alcance de qualquer um. Era disso, no fundo, que os dois filmes queriam se impregnar: dessa exposição, desse peito-aberto da juventude. E assim eles se mostram, como no longo e tateante diálogo entre Chico e seu melhor amigo, logo após a primeira transa, tão comicamente honesto, ou ainda quando Caio nos revela o sonho em que ouvia finalmente de Rafael que a recíproca de sua paixão era verdadeira. O final feliz não é mais do que uma retribuição a tamanha entrega. Furtado reúne o casal romântico. Gotardo não precisa (e nem poderia) chegar a tanto. Mas crava na carteira escolar, a golpes de compasso, uma lição válida para os dois filmes: o amor permanente, profundo, que não se apaga com borracha.

* Rodrigo de Oliveira é crítico de cinema, redator e co-editor da Revista Contracampo e colunista do jornal capixaba Século Diário.

(fonte: Programadora Brasil)