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SONORIDADES INOVADORAS: Hermeto e Tom Zé

janeiro 24, 2011

O ciclo de programas sobre música brasileira no Benedita Cineclube tem sua segunda sessão na próxima quinta, 27/1 às 19h com os mestres Hermeto Paschoal e Tom Zé.

Programa histórico-musical que reúne documentários sobre dois músicos que nasceram em 1936 e que têm em comum a integração de sonoridades de objetos não-convencionais em suas criações. No Rio de Janeiro, o alagoano Hermeto Paschoal em seu processo de criação cuidadosamente registrado no início dos anos 1980 pelo veterano documentarista Thomaz Farkas. Em São Paulo, na virada do século, em documento bastante rigoroso – mais do que urgente – da jovem diretora Carla Gallo, o baiano Tom Zé expõe suas idéias, obsessões, fraquezas e grandezas. (Fonte: Programadora Brasil)

A sessão começa com Hermeto campeão, de Thomaz Farkas SP, 1981, Documentário, Colorido, 35 min.

Hermeto Pascoal é incontestavelmente um dos maiores músicos brasileiros. O filme evoca a inspiração, a maneira de compor e os pontos de vista de Hermeto Pascoal sobre a fama, o dinheiro e o trabalho. Hermeto Pascoal toca com os sapos e compõe com as abelhas. Os componentes do conjunto fazem um pequeno depoimento sobre o que é trabalhar com Hermeto Pascoal.

Ficha Técnica

Direção: Thomaz Farkas
Roteiro: Thomaz Farkas
Produção Executiva: Thomaz Farkas
Direção Fotografia: Pedro Farkas
Fotografia de Cena: Não
Montagem/Edição: Junior Carone
Técnico de Som Direto: David Pennington
Sound Designer: Junior Carone

Tom Zé, ou quem irá colocar uma dinamite na cabeça do século? de Carla Gallo SP, 2000, Documentário, Colorido, 48 min.

Retrato estético do cantor e compositor Tom Zé

Ficha Técnica

Direção: Carla Gallo
Elenco: Depoimentos: Tom Zé, Hans-Joachim Koellreutter
Produção Executiva: Carla Gallo
Direção de Produção: Carla Gallo – Produção: Celso Camargo, Priscilla Migliano, Carla Gallo
Direção Fotografia: Jay Yamashita
Operador de Câmera: Jay Yamashita, Luiz Duva, Sergio Zeigler, André Finotti, André Francioli, Christian Shagaard
Montagem/Edição: Tatiana Lohmann
Direção de Arte: Eduardo Climachauska
Técnico de Som Direto: Gabriela Cunha e Bruno Carneiro

Crítica

Dois inventores, por Cléber Eduardo*

Em um dado momento de Hermeto Campeão (1981), de Thomas Farkas, a tela escurece por muitos segundos. Ficamos a ouvir o coral dos sapos e as intervenções sonoras de Hermeto Paschoal. Em um dado momento de Tom Zé ou Quem irá Colocar uma Dinamite na Cabeça do Século? (2000), de Carla Gallo, a tela escurece, com pequenas aparições de linhas gráficas brancas de tempos em tempos, depois das quais voltamos à escuridão. Ficamos a ouvir “Toc”, do álbum Estudando o Samba, do começo dos anos 1970, também sem uma imagem a nos conduzir.

Nesses dois médias-metragens realizados com quase 20 anos de diferença, resultados da decisão de seus diretores de apontar a câmera e o microfone para inventores inquietos da música brasileira (Hermeto Paschoal e Tom Zé), é notável a proximidade entre os procedimentos nesses momentos mencionados. Em ambos, a imagem se retira e deixa o som ficar a sós. Farkas e Carla procuram integrar-se com a linguagem e com a lógica sonoro-musical de seus “personagens” em vez de imporem a eles uma estética planejada a priori.

Hermeto o Campeão é Hermeto Paschoal em ação. Ou seja, ensaiando, gravando, tocando, experimentando sons, ruminando frases. O som de sua voz nunca está em sua boca. Enquanto instrui instrumentistas ou reflete sobre dinheiro e arte, vemos outras imagens, sejam fotos de conhecidos, sejam imagens de sua casa, família, ensaios. O ensaio é a situação mais recorrente. São os momentos em que a câmera detém-se na experiência, circula em torno do músico, procura detectar o instante da criação.

Essa atenção para o que a câmera está olhando, para especialmente o músico em sua invenção, é reivindicada pela experimentação musical. Hermeto é um agente da surpresa e da aventura criativa. Onde deverá estar a câmera em um momento de invenção musical? Essa dúvida é incorporada pela própria operação da câmera, que, eventualmente, não parece saber para onde se dirigir e com qual mobilidade se locomover. Uma câmera em sincera dúvida sobre a melhor maneira de captar Hermeto.
Se Hermeto é menos carisma verbal e mais uma imagem em cena, Tom Zé ou Quem irá Colocar uma Dinamite na Cabeça do Século? lida com o contrário. Tom Zé é falante, tem uma performance oral e corporal, além de, ao contrário de Hermeto, possuir capacidade de auto-análise. Esse show da fala de Tom Zé, com virtuosismos de fabulador ao narrar as histórias de sua infância, revela um núcleo “olho no olho”, com trechos captados no estúdio pautando a dinâmica visual (entrevistas, improvisos musicais, performances). A mobilidade desse núcleo “interno e interativo”, centrado nas retórica e no carisma de Tom Zé, é perseguida pelas mudanças de ângulo e de distância da câmera.

Se Hermeto é a invenção pela qual a câmera está à espera, não sem ansiedade, porque aguarda o futuro imediato daquele momento (o estar por vir), Tom Zé carrega em sua ansiedade todo o rastro de um passado, com o qual está sempre a acertar contas. Procura-se uma perspectiva retroativa, de quem viveu um processo e tenta tirar alguma lição daquilo, com passado e presente conectados por imagens de arquivo, por sua vez em diálogo com imagens contemporâneas. Hermeto é mostrado por Farkas. Tom Zé é codificado, decodificado e ritualizado por Carla Gallo.

serviço: O Benedita Cineclube acontece no Espaço Cultural Sinhá Prado – Av. Virgílio de Melo Franco, 481 – Cambuquira-MG. SONORIDADES INOVADORAS: Hermeto e Tom Zé – qui 27/01, 19h

Classificação Livre

Duração: 78 min

Entrada gratuita!

SAMBA E BOSSA NOVA: MÚSICA DO BRASIL

janeiro 17, 2011

Na próxima quinta, 20 de janeiro às 19h o Benedita Cineclube abre seu segundo ciclo musical (vide programação de abril/2010). Desta vez, a música brasileira é a personagem principal das próximas semanas.

O ciclo começa com o excelente programa da Programadora Brasil, SAMBA E BOSSA NOVA: MÚSICA DO BRASIL.

Quem faz a música popular brasileira? São poetas, malandros, guerreiros, amantes, palhaços e colombinas. Saem dos cortiços, morros e arranha-céus, chegam de jangada nas praias, comem mocotó e feijoada, desembarcam no aeroporto de Paris. Os sete documentários reunidos nesta compilação mostram o dia-a-dia, as apresentações, gravações e entrevistas em deliciosos registros dessa grande paixão brasileira. Partindo do samba de Pixinguinha, Noel Rosa e Heitor dos Prazeres, passando por Martinho da Vila e João Nogueira, com um breque na bossa nova de João Gilberto, avança até a MPB de Caetano Veloso, Gilberto Gil, Maria Bethânia, Nara Leão e Jards Macalé.

Álbum de Música, de Sérgio Sanz, RJ, 1974

Músicas de Pixinguinha, Almirante, Ismael Silva, Nelson Cavaquinho e Cartola. Gilberto Gil e Jards Macalé comentam o filme. Depoimentos de Nara Leão e Nelson Motta sobre a música popular brasileira.

Cartola, em Álbum de Música

Brasil, de Rogério Sganzerla , RJ, 1981

Curta-metragem comemorativo do lançamento do décimo disco durante o cinqüentenário de nascimento de João Gilberto. Com trilha intitulada “Brasil”, gravado com Caetano, Gil e Maria Bethânia. A execução do disco em diferentes fases e distâncias, registradas em contraponto com flashes de personalidades da vida nacional, representados em uma situação limite (O que é o Brasil? O que é o brasileiro?) – “O Brasil, dizia Oswald de Andrade, “ vive em estado de sítio desde a idade trevosa das capitanias”.

Cetano, Bethânia e João Gilberto em BRASIL

 

Carioca, suburbano, mulato, maladro – João Nogueira, de Jom Tob Azulay, RJ, 1979

Documentário sobre o cantor e compositor popular do Rio de Janeiro, João Nogueira

Heitor dos Prazeres, de Antonio Carlos da Fontoura, RJ, 1965

Memórias do sambista popular e pintor primitivo Heitor dos Prazeres, em seu atelier na Cidade Nova, bairro em santa decadência do Rio de Janeiro, mas ainda vivo nos sambas, nos quadros e nas recordações do artista.

Martinho da Vila Paris 1977, de Ari Candido Fernandes , SP, 1977

Trata-se de documentario realizado em Paris em 1977, registrando a passagem por Paris em Tour de apresentações na capital francesa do cantor e compositor popular brasileiro Martinho da Vila .Com depoimentos espontaneos,gravações em estudio de TV,apresentação no clube musical Campagne Premiére,reunido com amigos em casa,em frente ao Cafe Via Brasil,andando por ruas no Quartier Latin,Torre Eiffel,Parques,Montmartre,Montparnasse,bares e cafés iluminado por luzes de néon na cidade das Luzes-ou seja Paris.Além de intimo depoimento sobre as exigencias de emrpesrios brasileiros,comparação entre o metro de Paris e trens suburbanos cariocas,critica ironica a classe média que vem à Paris só pra tirar fotos lembrançinhas em frente á monumentos turisticos da cidade e mais: o que o mesmo fará após alguns anos de carreira…

Martinho da Vila em cena do filme

 

Noel por Noel, de Rogério Sganzerla , RJ, 1981

Ensaio documental sobre a música e o tempo de Noel Rosa, com colagens de imagens de arquivo, fotografias de época e e filmagens de blocos carnavalescos na Vila Isabel.

Pixinguinha e a velha guarda do samba, de Ricardo Dias e Thomaz Farkas, SP, 2006

Em abril de 1954 Thomaz Farkas filmou, com uma câmera 16mm de corda, uma apresentação de Pixinguinha e o Pessoal da Velha Guarda, no parque do Ibirapuera em São Paulo, nos festejos do IV Centenário da cidade. Este material se perdeu e foi reencontrado 50 anos depois. O filme conta esta história e recupera o material.

Pixinguinha e a Velha Guarda do Samba

CRÍTICA

País musical, por Marcus Mello

A riqueza do patrimônio musical brasileiro, em especial o samba e a bossa nova, é o mote temático deste programa, que reúne sete curtas-metragens, realizados entre 1965 e 2006. Em Brasil (1981), Rogério Sganzerla documenta os bastidores da gravação do disco homônimo de João Gilberto, que contou com a participação de Caetano Veloso, Gilberto Gil e Maria Bethânia. Paralelamente, o diretor organiza um caleidoscópio de imagens, que incluem a passagem de Orson Welles pelo Brasil para as filmagens do inacabado It’s All True, além de performances de artistas como Grande Otelo, Ary Barroso, Dorival Caymmi e Eros Volúsia. Um genial rascunho para os três longas que Sganzerla depois dedicaria à frustrada experiência de Welles no país, Nem tudo é verdade (1986), Tudo é Brasil (1998) e O signo do caos (2003).

Álbum de música (1974), de Sérgio Sanz, retrata o “saudável caos” da música popular brasileira na primeira metade da década de 1970. Conduzido pelo jornalista Nelson Motta, o espectador vê desfilar diante da câmera um notável elenco de personalidades da MPB, em registros raros.
Carioca, suburbano, mulato, malandro – João Nogueira (1979), de Jom Tob Azulay, traça um perfil do popular sambista João Nogueira, morto em 2000. O diretor acompanha Nogueira em rodas de samba regadas a cerveja e mocotó e a visitas a músicos da velha guarda da Portela, sua escola do coração, além de registrar a gravação em estúdio do clássico samba “Súplica”. Um valioso documento sobre um compositor sofisticado, cuja contribuição para a música popular brasileira ainda está para ser devidamente reconhecida.
Heitor dos Prazeres (1965), de Antônio Carlos da Fontoura, mostra a grande arte do pintor e compositor, autor de clássicos como “Pierrô Apaixonado” e de telas que registraram o colorido do carnaval carioca. Em seu ateliê na Praça Onze, elegante como um dândi, o artista relembra seu passado. Realizado um ano antes da morte de Heitor, o curta foi fotografado por Affonso Beato, que reproduz as cores exuberantes das telas do artista com a mesma maestria mais tarde colocada a serviço do diretor espanhol Pedro Almodóvar.
Martinho da Vila Paris 1977 (1977), de Ari Candido Fernandes, documenta uma viagem do cantor e compositor Martinho da Vila à capital francesa. A invasão do samba brasileiro ao Quartier Latin é mostrada através de imagens e depoimentos saborosos de Martinho, neste curta que tem sua montagem assinada pelo crítico de cinema Inácio Araújo.
Em Noel por Noel (1981), Rogério Sganzerla presta tributo ao grande compositor da Vila Isabel, morto com apenas 26 anos de idade. A meteórica carreira de Noel é condensada ao longo de 10 minutos por Sganzerla, que exercita sua montagem dialética organizando documentos, fotos, manuscritos e imagens da musa do compositor, Ceci. Um belo ensaio para o longa que Sganzerla sempre sonhou em dirigir sobre Noel, e acabou morrendo sem concretizar.
O programa encerra-se com Pixinguinha e a velha guarda do samba (2006), de Ricardo Elias e Thomaz Farkas. O curta traz um raro registro de Pixinguinha, feito pelo próprio Farkas durante uma apresentação do grande compositor realizada em São Paulo, em abril de 1954, no Parque do Ibirapuera. Com a colaboração de Ricardo Dias, Farkas recupera esse material e relembra o dia em que filmou, absolutamente por acaso, esse mestre da música popular brasileira em ação.

Marcus Mello: Crítico de cinema gaúcho, é editor da revista Teorema (RS) e colaborador das revistas Aplauso (RS) e Cinética (RJ). Programador da Sala P. F. Gastal, cinema mantido pela Secretaria Municipal da Cultura de Porto Alegre.

serviço:
O Benedita Cineclube acontece no Espaço Cultural Sinhá Prado – Av. Virgílio de Melo Franco, 481 – Cambuquira-MG.

SAMBA E BOSSA NOVA – qui 20/01, 19h

Classificação 12 anos.

Duração: 78 min

Entrada gratuita!