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TERRA ESTRANGEIRA, de Walter Salles e Daniela Thomas

junho 9, 2010

Terra Estrangeira é o próximo filme a ser exibido no Benedita Cineclube.

Sábado, 12/6 às 18h (novo horário!).

Terra Estrangeira é um filme cheio de sotaques,  não apenas lingüísticos, mas também cinematográficos. No princípio, é um drama naturalista centrado no cotidiano das personagens. Aos poucos evolui para o inferno existencial, na medida em que Paco e Alex se deslocam de suas bases. Mas de repente é um filme de gangster, e logo em seguida um road movie romântico e desesperado à maneira de Nicholas Ray. Todas essas “línguas” se encontram apenas no estilo sofisticado e coeso de enquadrar, iluminar e montar as imagens.” Carlos Alberto Mattos (crítica na íntegra no final deste post).

No início da década de 90, Fernando Collor, primeiro Presidente eleito pelo voto popular depois de 25 anos de regime de exceção, inicia seu governo promovendo o Plano Brasil Novo (conjunto de medidas para o combate da inflação). Os efeitos dessa política econômica são o ponto de partida de ” Terra Estrangeira” , filme de Walter Salles e Daniela Thomas. As perspectivas de um futuro incerto levava centenas de brasileiros a procurar uma única saída para a crise nacional, o aeroporto. E este foi o caminho que Paco, personagem de estréia de Fernando Alves Pinto, percorreu. Após o anúncio do Plano Collor ele vê a vida de sua mãe, Manoela, uma costureira espanhola que sonha em rever sua terra natal , destruída e, sem dinheiro, aceita entregar um pacote misterioso em Lisboa em troca do custeio de sua viagem. Ele perde a remessa e segue em fuga para a Espanha. Como que condenado a um constante deslocamento e sem qualquer esperança, o personagem de Paco permanece à deriva. Um exemplo perfeito dos orfãos de uma nação que aparentemente nunca irá acolhê-los. A trilha sonora de José Miguel Wisnick e a belíssima fotografia em preto e branco de Walter Carvalho contribuem para o clima noir que percorre todo o filme.

Sinopse

Brasil, 1990. Plano Collor é anunciado. Sem perspectiva em um país tomado pelo caos, Paco, um jovem de 20 anos de i dade, opta pelo exílio após a morte da mãe. Parte para Portugal, aceitando uma encomenda suspeita para a viagem. Em Lisboa, Alex, uma brasileira de 25 anos, acaba de deixar o namorado, envolvido na mesma teia de contrabando. Os destinos desses dosi jovens vão se aproximar, inexoravelmente, numa fuga desesperada…

Ficha Técnica

Direção: Walter Salles
Roteiro: Daniela Thomas, Walter Salles, Marcos Bernstein e Millôr Fernades
Elenco: Fernanda Torres, Fernando Alves Pinto, Luis Melo, Alexandre Borges, Laura Cardoso, João Lagarto, José Laplaine, João Grosso, Canto e Castro, Miguel Guilherme, Carlos Santos, Isilda Marques, Angelo Torres, José Antonio Pires, Miguel Hurst, Antônio Cara Dïanjo, Álvaro Livin, Felipe Ferrer, João Oliver, Alberto Alexandre, Manuel Mendes, Laert Sarrumor Sarrumor, Jaques Jover, Carlos Dias, Lulu Pavarini, Carla Lupi Lupi, D. Tina, Di Domênico, Miguel Athie, Pérsio Pisani, Mariana Lima, Joaquim Goulart, Cacá Ribeiro, Ludoval Campos, Gisela Arantes, Sonia Schulb, Geraldo Mário, Paulo Simões, Alberto Fuks, Eduardo Capozzi, Milah Ribeiro, José Paulo Rosa, Participação especial: Tcheky Karyo, Beth Coelho, Gerald Thomas, Edilson Botelho.” D. Tina, Di Domênico, Miguel Athie, Pérsio Pisani, Mariana Lima, Joaquim Goulart, Cacá Ribeiro, Ludoval Campos, Gisela Arantes, Sonia Schulb, Geraldo Mário, Paulo Simões, Alberto Fuks, Eduardo Capozzi, Milah Ribeiro, José Paulo Rosa, Participação especial: Tcheky Karyo, Beth Coelho, Gerald Thomas, Edilson Botelho.
Empresa(s) Co-produtora(s): Videofilmes e Animatógrafo
Produção Executiva: Flavio R. Tambellini
Direção de Produção: Maria João Mayer (Portugal) e Afonso Coaracy(Brasil)
Coordenação de Produção: Maria Carlota Fernandes e Marina Meireles
Assistente de Produção: Wellington Machado, Isabel Monteiro e Pedro Teixeira
Direção Fotografia: Walter Carvalho
Montagem/Edição: Walter Salles e Felipe Lacerda
Direção de Arte: Daniela Thomas
Técnico de Som Direto: Geraldo Ribeiro (BR), Carlos Alberto Lopes (Portugal)
Edição Som: José Luiz Sasso
Trilha Musical: José Miguel Wisnik

Prêmios

-Grande Prêmio do Público no Paris Internacional Film Forum, 1995 – FR.
-Prêmio APCA, 1995, SP, de Melhor filme.
-Melhor filme no Festival de Gramado, 23, 1995, RS.
-Margarida de Prata, 1996, RJ, da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil de Melhor Filme Nacional.
-Grande Prêmio do Público e Prêmio Especial do Júri no Festival de Belfort – FR.
-Grande Prêmio de Público no Festival de Bérgamo – IT.
-Karibu Award no Cinema Novo Festival – BE.
-Câmera de Prata no International Film Camara Festival – MK.
-Melhor Roteiro no Festival de Providence – US.
-Melhor Filme Ibero-Americano no Festival Cinematográfico Internacional do Uruguai – UY.

Crítica

Exílio na terra do cinema por Carlos Alberto Mattos

Quando Terra Estrangeira foi realizado, o Brasil estava sem cinema e sem “pai”. Tomava o país uma sensação de orfandade, de barco à deriva. Tínhamos virado uma nação de emigrantes, porto de saída para um exílio que não era mais o político da ditadura, mas o do desencanto de almas perdidas e sonhos adiados. Walter Salles e Daniela Thomas, depois de morarem no exterior, faziam o caminho inverso: fixavam carreira no Brasil e partiam em busca de uma identidade para o cinema brasileiro. Fizeram um filme sobre e contra o vácuo.

A relação com Portugal e Espanha, matrizes colonizadoras, sinaliza esse desejo contraditório de evasão rumo às origens. Alex e Paco saem em busca de si mesmos e encontram a terra do cinema, esse fim-de-mundo sem raízes onde se pode deslizar à vontade e trocar de gênero como quem troca de estrada. Eles são crianças que saem de casa para brincar de adultos no país do cinema, empunhar armas, correr perigo e fazer poesia ao mesmo tempo. Em lugar da clássica rebeldia, apenas o abandono, uma vaga disposição para “enfrentar a ira do trovão”. Igualados em suas perdas e na sensação de não pertencer a lugar nenhum, Paco e Alex têm o movimento contínuo como único destino. São puro cinema, sem lenço nem passaporte.

Terra Estrangeira é um filme cheio de sotaques, não apenas lingüísticos, mas também cinematográficos. No princípio, é um drama naturalista centrado no cotidiano das personagens. Aos poucos evolui para o inferno existencial, na medida em que Paco e Alex se deslocam de suas bases. Mas de repente é um filme de gangster, e logo em seguida um road movie romântico e desesperado à maneira de Nicholas Ray. Todas essas “línguas” se encontram apenas no estilo sofisticado e coeso de enquadrar, iluminar e montar as imagens.

Com seus sotaques ora de teatro, ora de videoarte, ora do neo-noir pós-moderno, Terra Estrangeira ajudou a tornar o cinema brasileiro mais contemporâneo em sua época. Ao discurso nacional-popular do Cinema Novo contrapôs uma novíssima pauta internacional-fina sem, contudo, abdicar da reflexão sobre a condição brasileira. Enquanto o termo “terra” evocava uma constante em filmes de Glauber Rocha, o adjetivo “estrangeira” apontava para as idéias de exílio, alteridade e globalização.

O filme antecipou elementos que se tornariam freqüentes na obra de Walter Salles. Entre eles, a ausência do pai, a inversão da imagem da Pietá (que voltará em Central do Brasil), a estrutura do road movie e a presença simbólica do mar e da água (O Primeiro Dia, Abril Despedaçado, Diários de Motocicleta, Água Negra).

Apesar do desfecho trágico, a noção de redenção tampouco está ausente, aqui sob a forma de uma crescente aproximação entre Brasil e Portugal. Esses espaços, inicialmente confinados por letreiros, vão perdendo distância pelas justaposições da montagem, a música do violino e imagens poéticas como a das fotos “navegando” na água do banheiro. É por meio da linguagem do cinema que Terra Estrangeira reconstrói pontes e sutura o vácuo.

O Benedita Cineclube acontece no Espaço Cultural Sinhá Prado – Av. Virgílio de Melo Franco, 481 – Cambuquira-MG.

Terra Estrangeira – sáb, 12/6, 18h – classificação 16 anos.

Entrada gratuita.



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