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TERRA DEU TERRA COME, de Rodrigo Siqueira, Documentário, 88min, 2010, Brasil

outubro 27, 2010

O Benedita Cineclube fecha o mês de outubro com o lançamento nacional do documentário Terra Deu Terra Come, de Rodrigo Siqueira.

Não percam, é nesta quinta, 28/10, às 19h.

Nonada.
Terra Deu, Terra Come.

Grande vencedor do festival É Tudo Verdade 2010, Terra Deu, Terra Come traz ao espectador um filme de linguagem ao mesmo tempo simples e encantadora, que harmoniza forma e conteúdo com muita sensibilidade. Como definiu o crítico Eduardo Escorel, Terra Deu Terra Come “de um lado, revela um personagem singular, morador de uma comunidade isolada, vinculada a valores arcaicos; de outro, elabora linguagem sofisticada, estabelecendo um novo patamar para o cinema que procura desvendar os mistérios do mundo.”

As histórias contadas pelo cativante protagonista e a maneira como a narrativa se estrutura leva o espectador ao universo mítico do sertão de Minas Gerais, aquele “sertão do tamanho do mundo” dos livros de Guimarães Rosa. Memória, documentário e ficção se fundem para mostrar a vida e a morte em um canto metafísico de Minas. Não se sabe o que é verdade ou representação, fato ou invenção.

Quando, em 2005, o diretor Rodrigo Siqueira conheceu Pedro de Alexina, que mora no Quartel do Indaiá, comunidade de garimpeiros na região de Diamantina, Minas Gerais, ficou imediatamente encantado com aquele senhor octagenário e guardião das antigas tradições que os africanos trouxeram para a região no século XVIII. Pedro de Alexina é um dos últimos conhecedores dos vissungos, cantos em dialeto “banguela” que eram usados no trabalho nas minas de ouro e diamante e também nos rituais fúnebres. Mas esta não é sua principal qualidade. Trata-se de um exímio contador de histórias, com um carisma fora do comum que o coloca entre os grandes personagens da história do documentário brasileiro. Seu Pedro traz a ambiguidade em si mesmo, a dúvida, a verdade e a invenção, a atuação e a auto-representação. Na tradição oral, a performance do narrador é fundamental para que se mantenha a audiência. As histórias só existem se houver quem as ouça. Elas só permanecem se os ouvintes seguirem seus passos até o fim. E é na performance, na capacidade de invenção do narrador, que se constrói a atenção e o vínculo do ouvinte com o que se conta. Quanto mais fabuloso, mais curioso o ouvinte fica, como que a querer saber até que ponto o narrador vai conduzi-lo. Onde diabos isso vai dar? Esse é o jogo de Terra Deu, Terra Come.

No prólogo do filme, Seu Pedro narra um tipo de história que é muito popular no Brasil, herdada da tradição do catolicismo popular português. “No tempo que Cristo mais São Pedro andavam pelo mundo…” Há uma infinidade de histórias que começam assim, como que remetendo o ouvinte a um tempo remoto e vinculando a narrativa a duas “testemunhas” de reputação ilibada – Cristo e São Pedro –, a corroborar a veracidade do narrado. Como fica explícito no filme, em geral, essas histórias carregam sabedoria disfarçada de simplicidade.
Juntos e cúmplices, cineasta e personagem se engajam em um jogo de fazer cinema, uma partilha, uma conversa, um duelo, uma encenação.

SINOPSE

Pedro de Almeida, garimpeiro de 81 anos de idade, comanda como mestre de cerimônias o velório, o cortejo fúnebre e o enterro de João Batista, que morreu com 120 anos. O ritual sucede-se no quilombo Quartel do Indaiá, distrito de Diamantina, Minas Gerais. Ao conduzir o funeral de João Batista, Pedro desfia histórias carregadas de poesia e significados metafísicos, que nos põem em dúvida o tempo inteiro. A atuação de Pedro e seus familiares frente à câmera nos provoca pela sua dramaturgia espontânea, uma auto-mise-enscène instigante. No filme, não se sabe o que é fato e o que é representação, o que é verdade e o que é um conto, documentário ou ficção, o que é cinema e o que é vida, o que é africano e o que é mineiro, brasileiro.


PRODUÇÃO
A produção do documentário começou no dia 1º de Janeiro de 2005, quando o diretor Rodrigo Siqueira conheceu o sr. Pedro Almeida, personagem principal do filme. Desde então foram foram 12 viagens à comunidade de Quartel do Indaiá. E em maio de 2007, com o patrocínio da Petrobras, e com a cooperação da Representação da UNESCO no Brasil, uma equipe de apenas 4 pessoas fez uma imersão de 30 dias com o protagonista e sua família. Essa imersão resultou em um material de 40 horas, que funde documentação etnográfica e experimentação em busca do rico imaginário poético dos personagens. Ao final, a produção enxuta favoreceu a linguagem do filme. Posteriormente, o projeto foi contemplado pelo Programa de Fomento ao Cinema Paulista na categoria de finalização, com patrocínio da Sabesp.


PROEZA NOTÁVEL – Crítica de Eduardo Escorel para revista Piauí

Escolhido melhor documentário da competição brasileira do festival É Tudo Verdade deste ano (8 a 18 de abril ), “Terra Deu, Terra Come”, produzido, dirigido e editado por Rodrigo Siqueira, é uma proeza. De um lado, revela um personagem singular, morador de uma comunidade isolada, vinculada a valores arcaicos; de outro, elabora linguagem sofisticada, estabelecendo um novo patamar para o cinema que procura desvendar os mistérios do mundo.
Entre outros feitos, “Terra Deu, Terra Come” harmoniza assunto e forma com destreza, evidenciando os limites das duas variantes usuais do documentário – (1ª) mera observação de eventos que ocorrem independente da vontade do realizador e (2ª) depoimentos propiciados pelo observador. Rodrigo Siqueira terá percebido que essas duas possibilidades não dariam conta do que encontrou na comunidade do Quartel de Indaiá, perto de Diamantina, em Minas
Gerais. Seria preciso recorrer à terceira alternativa – reconstruir o passado, terreno livre da invenção.
Pedro de Alexina, velho garimpeiro, ganhou o merecido crédito de colaborador na direção de “Terra Deu, Terra Come”, ao se tornar protagonista e, junto com Rodrigo Siqueira, maestro dessa reconstrução. A partir de um evento deflagrador, o documentário recupera o ritual para encomendar almas, que Pedro de Alexina é dos poucos remascentes a conhecer. Nesse processo, o evento circunstancial – a morte de um amigo – perde relevância. Prevalece
a dimensão mítica, recuperada na narrativa de Pedro de Alexina. Conduzindo o relato, ele dá lições de sabedoria, fala do quotidiano, improvisa explicações, sem esclarecer, em cada caso, quando está fabulando ou sendo factual.
A importância da tradição oral, fundamento do saber na comunidade, é indicada no começo do prólogo, através da supressão da imagem. Livre de apelos visuais, com a tela preta, a atenção pode se concentrar na fala que define o tema de “Terra Deu, Terra Come”. Mesmo “velhos e se arrastando”, não aceitamos a morte, diz Pedro de Alexina. Remontando ao tempo em que
“Cristo mais São Pedro andavam pelo mundo”, explica o acordo que levou à preservação da vida de idosos, necessários para dar “conselho aos novos”. Só de vez em quando, a Morte saltava e matava um, diz Pedro de Alexina, ficando culpada por isso. Cristo, então, inventa a desculpa que existe até hoje: “Quando morre um, ah é, foi do coração. Tomou uma topada? Ah, foi a topada! O que que o freguês arrumou? Ah, não, ele adoeceu, apresentou com isso, aquilo outro, né? Morreu! Né? É a desculpa que Deus pôs… que nós todos, hoje, tá nessa desculpa. Ah, do que morreu? Ah, de repente…ah, é o coração. Nonada, mas tem essa Morte. Né?”
“Mergulhado e enredado” por “Grande Sertão: Veredas” Rodrigo Siqueira viajou “em busca do sertão mítico e profundo retratado por Rosa.” Motivação que o levou à região explicitada no relato da abertura de “Terra Deu, Terra Come”, quando Pedro de Alexina usa a palavra nonada, como é sabido, a primeira do romance de Guimarães Rosa. Rodrigo Siqueira aparece em alguns planos, e ao longo do documentário pede explicações a Pedro de Alexina. Não querendo ser um observador distante, vence a timidez e procura se integrar à observação; revela, por outro lado, que “Terra Deu, Terra Come” é o registro de uma descoberta, não de algo conhecido de antemão. Para poder apreciar esse processo, o espectador precisa ter disposição para reviver, concentradas em 89’, dúvidas, hesitações, e ambiguidades do longo caminho percorrido na realização dessa obra notável.

LANÇAMENTO
Com distribuição da VideoFilmes e da 7Estrelo Filmes, em parceria com os contemplados do Programa Cine Mais Cultura – do MINC, Terra Deu, Terra Come, será lançado simultanemante com mais de 800 cópias em todo o país a partir do dia 1º de outubro. Considerado pelos críticos como um documentário de linguagem inovadora, o filme inova também em sua estratégia de lançamento e entra em cartaz com dimensões comparáveis aos “blockbusters” americanos. Tradicionalmente, os documentários brasileiros são lançados com pouquíssimas cópias e têm grande dificuldade de alcançar o público. Terra Deu, Terra Come inova porque incorpora à sua estratégia de distribuição um parque exibidor alternativo que tem larga escala e capilaridade nas capitais no interior do país.
O compromisso da produtora 7Estrelo Filmes e da distribuidora VideoFilmes é fazer com que o filme chegue a quem deve chegar, que é o público brasileiro. Seja em um cinema na região da avenida Paulista, da zona sul do Rio de Janeiro, em um cineclube no interior do Acre, no sertão mineiro ou no pantanal. O programa Cine Mais Cultura, do governo federal conta hoje com 821 pontos de exibição digital em todos os 27 estados do Brasil, em periferias das capitais e no interior dos estados. E faz chegar cinema a centenas de cidades que não possuem salas de exibição comercial. O Benedita Cineclube é um desses pontos, sediado em Cambuquira-MG.

FICHA TÉCNICA
Título Original: Terra Deu, Terra Come
Formato de captação: DVC PRO HD e 16mm
Formato de exibição: HDCAM
Duração: 88 minutos
País: Brasil
Gênero: Documentário
Realização: 7 Estrelo Filmes
Produtora Associada: Tango Zulu Filmes
Distribuição: VideoFilmes
Direção: Rodrigo Siqueira
Colaborou na direção: Pedro de Alexina
Fotografia: Pierre de Kerchove
Som: Célio Dutra
Produção executiva: Rodrigo Siqueira e Tayla Tzirulnik
Assistente de Produção Juliana Kim
Pesquisa: Lúcia Nascimento e Rodrigo Siqueira
Produção de frente: Marcelo Ferrarini e Roberta Canuto
Produção de set: Ricardo Magoso
Edição: Rodrigo Siqueira
Arte e gráficos: Júlio Dui
Finalização de imagem: Alex Yoshinaga
Mixado nos estúdios: TIL
Produção de Lançamento: Lívia Rojas e Michael Wahrmann
Lançamento em São Paulo: 1
º
de outubro de 2010


Elenco
Pedro de Alexina
Dona Lúcia
João Batista
Dolores
Seu Pidrim Pessanha
Admilson
Geovani
Adilson
Nei
Edinho
Sineca
e familiares de seu Pedro



serviço:
O Benedita Cineclube acontece no Espaço Cultural Sinhá Prado – Av. Virgílio de Melo Franco, 481 – Cambuquira-MG.

TERRA DEU TERRA COME – qui 28/10, 19h

Classificação Livre

Entrada gratuita.