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JANGO, Silvio Tendler, 1984

fevereiro 21, 2011

No próximo dia 24, às 19h o Benedita Cineclube exibe JANGO, um dos maiores sucessos populares da história do documentário brasileiro, foi um filme necessário no seu tempo (1984, estertores do período de exceção) e hoje é um clássico.

Poucas vezes o perfil de um líder político chegou às telas com a fluência, a inteligência e a emoção desse trabalho de Silvio Tendler. O filme concentra-se na figura um tanto trágica desse estadista sem poder que, junto com sua deposição em 1964, levou consigo, por muito tempo, os sonhos de um governo popular. Um tesouro em materiais de arquivo é submetido a uma edição vibrante e servido por um texto que, além de comentar as imagens, vale-se de metáforas e aproximações para revelar o seu subtexto.

Sinopse

Um relato da vida política brasileira dos anos 60, tendo como fio condutor a biografia do presidente João Goulart. Sua ascensão e queda até a morte no exílio são reconstituídas a partir de material de arquivo e entrevistas com personalidades como o ministro Afonso Arinos de Melo Franco, o general Antonio Carlos Muricy, Leonel Brizola, Celso Furtado e Frei Betto, entre outros.

Crítica

“O estadista sem poder”, por Lúcio Flávio*

João Goulart morreu no exílio em 1976, tendo sido o único presidente brasileiro a chegar ao fim da vida nessas condições. Tal qual os estranhos personagens do escritor Albert Camus, perambulou pelos tortuosos caminhos do destino alimentando sonhos e esperanças que o retratassem com um passado marcado por equívocos e, em seu caso, injustiças históricas. Justiça essa, reparada, em parte, pelo ótimo documentário Jango, de Silvio Tendler. Precioso registro de nosso recente passado político, o filme – realizado em 1984, no calor do movimento pelas eleições diretas para a presidência da república – foi visto por mais de um milhão de pessoas, o maior público no gênero da cinematografia nacional.

Aproveitando momento importante do país, em que a democracia escancarava sua cara aos olhos de uma sociedade oprimida por mais de 20 anos de repressão ideológica, Jango também é uma espécie de mea-culpa com uma das figuras políticas mais emblemáticas do Brasil. Sua conturbada escalada política foi pontuada pelos sombrios ventos da época que carregavam a confusa dicotomia pregada pela vigente Guerra Fria, pelos flamejantes ideais socialistas e utopia populista que cercava, em menor ou maior grau, os governantes latino-americanos. Com João Goulart não seria diferente.

Conduzido pela melancólica trilha sonora de Wagner Tiso e Milton Nascimento e pela narração de José Wilker, o documentário alia leveza narrativa ao lado de vasto material de arquivo e entrevistas raras de personagens que viveram in loco e foram testemunhas cruciais daqueles conturbados anos. O rol perfila nomes como da filha de João Goulart, Denize Goulart, passando pelo líder comunista Gregório Bezerra, os jornalistas Raul Ryff e Marcos Sá Corrêa – o último com revelações surpreendentes da famigerada operação Brother Sam, que oficializava o envolvimento dos Estados Unidos no Golpe de 64 -, além dos ex-governadores Magalhães Pinto e Leonel Brizola – este em emocionante depoimento.

O primoroso texto de Maurício Dias desmente quaisquer riscos do uso da figura de Jango como mero pretexto para o discurso enaltecedor da democracia do diretor e produtor Silvio Tendler. Rico em material iconográfico e minucioso na pesquisa histórica, o longa esmiúça os bastidores da política nacional e estrangeira esclarecendo, passagens outrora nebulosas, como articulações que levaram a criação da chapa Jan-Jan (Jânio e Jango) ou o confuso e turbulento périplo de Goulart pela presidência até sua queda, em 1964. À luz desses acontecimentos, desfilam figuras marcantes da época como a do ditador chinês Mao Tsé-tung, do presidente americano John Kennedy e do guerrilheiro Ernesto “Che” Guevara, além de personalidades nacionais como Adhemar de Barros, Carlos Lacerda e Tancredo Neves.

Preciso e direto em sua abordagem, o roteiro, ora poético, em sua maioria objetivo, serve de esteio para as colagens visuais do cineasta, um artista que aprendeu a valorizar a história brasileira e seus personagens de maneira simples e cativante. De Glauber Rocha a Milton Santos, de JK à Jango, uma espécie de minotauro preso nos labirintos de nosso passado mais recôndito.

* Lúcio Flávio Crítico de cinema do jornal Correio
Braziliense.

Ficha Técnica

Direção: Silvio Tendler
Roteiro: Silvio Tendler
Assistente de Direção: José Olívia Jr.
Elenco: Narração:José Wilker Depoimentos : Afonso Arinos, Aldo Arantes, Antonio Carlos Muricy, Bocayuva Cunha, Celso Furtado, Denize Goulart, Francisco Julião, Francisco Teixeira, Frei Betto, Gregório Bezerra, Leonel Brizola, Marcos Sá Correa, Magalhães Pinto, Maria Vitória Benevides, Raul Ryff,
Empresa(s) Co-produtora(s): Caliban Produções Cinematográficas LTDA
Direção de Produção: Cássia Araújo
Coordenação de Produção: Maria Muricy
Direção Fotografia: Lucio Kodato
Montagem/Edição: Francisco Sérgio Moreira
Técnico de Som Direto: Geraldo Ribeiro
Estúdio Som: Rob Filmes
Trilha: Música: Milton Nascimento e Wagner Tiso

(fonte: Programadora Brasil)


serviço:
O Benedita Cineclube acontece no Espaço Cultural Sinhá Prado – Av. Virgílio de Melo Franco, 481 – Cambuquira-MG.

JANGO – qui 24/02, 19h

Classificação 12 anos

Duração: 115 min

Entrada gratuita!

SAMBA E BOSSA NOVA: MÚSICA DO BRASIL

janeiro 17, 2011

Na próxima quinta, 20 de janeiro às 19h o Benedita Cineclube abre seu segundo ciclo musical (vide programação de abril/2010). Desta vez, a música brasileira é a personagem principal das próximas semanas.

O ciclo começa com o excelente programa da Programadora Brasil, SAMBA E BOSSA NOVA: MÚSICA DO BRASIL.

Quem faz a música popular brasileira? São poetas, malandros, guerreiros, amantes, palhaços e colombinas. Saem dos cortiços, morros e arranha-céus, chegam de jangada nas praias, comem mocotó e feijoada, desembarcam no aeroporto de Paris. Os sete documentários reunidos nesta compilação mostram o dia-a-dia, as apresentações, gravações e entrevistas em deliciosos registros dessa grande paixão brasileira. Partindo do samba de Pixinguinha, Noel Rosa e Heitor dos Prazeres, passando por Martinho da Vila e João Nogueira, com um breque na bossa nova de João Gilberto, avança até a MPB de Caetano Veloso, Gilberto Gil, Maria Bethânia, Nara Leão e Jards Macalé.

Álbum de Música, de Sérgio Sanz, RJ, 1974

Músicas de Pixinguinha, Almirante, Ismael Silva, Nelson Cavaquinho e Cartola. Gilberto Gil e Jards Macalé comentam o filme. Depoimentos de Nara Leão e Nelson Motta sobre a música popular brasileira.

Cartola, em Álbum de Música

Brasil, de Rogério Sganzerla , RJ, 1981

Curta-metragem comemorativo do lançamento do décimo disco durante o cinqüentenário de nascimento de João Gilberto. Com trilha intitulada “Brasil”, gravado com Caetano, Gil e Maria Bethânia. A execução do disco em diferentes fases e distâncias, registradas em contraponto com flashes de personalidades da vida nacional, representados em uma situação limite (O que é o Brasil? O que é o brasileiro?) – “O Brasil, dizia Oswald de Andrade, “ vive em estado de sítio desde a idade trevosa das capitanias”.

Cetano, Bethânia e João Gilberto em BRASIL

 

Carioca, suburbano, mulato, maladro – João Nogueira, de Jom Tob Azulay, RJ, 1979

Documentário sobre o cantor e compositor popular do Rio de Janeiro, João Nogueira

Heitor dos Prazeres, de Antonio Carlos da Fontoura, RJ, 1965

Memórias do sambista popular e pintor primitivo Heitor dos Prazeres, em seu atelier na Cidade Nova, bairro em santa decadência do Rio de Janeiro, mas ainda vivo nos sambas, nos quadros e nas recordações do artista.

Martinho da Vila Paris 1977, de Ari Candido Fernandes , SP, 1977

Trata-se de documentario realizado em Paris em 1977, registrando a passagem por Paris em Tour de apresentações na capital francesa do cantor e compositor popular brasileiro Martinho da Vila .Com depoimentos espontaneos,gravações em estudio de TV,apresentação no clube musical Campagne Premiére,reunido com amigos em casa,em frente ao Cafe Via Brasil,andando por ruas no Quartier Latin,Torre Eiffel,Parques,Montmartre,Montparnasse,bares e cafés iluminado por luzes de néon na cidade das Luzes-ou seja Paris.Além de intimo depoimento sobre as exigencias de emrpesrios brasileiros,comparação entre o metro de Paris e trens suburbanos cariocas,critica ironica a classe média que vem à Paris só pra tirar fotos lembrançinhas em frente á monumentos turisticos da cidade e mais: o que o mesmo fará após alguns anos de carreira…

Martinho da Vila em cena do filme

 

Noel por Noel, de Rogério Sganzerla , RJ, 1981

Ensaio documental sobre a música e o tempo de Noel Rosa, com colagens de imagens de arquivo, fotografias de época e e filmagens de blocos carnavalescos na Vila Isabel.

Pixinguinha e a velha guarda do samba, de Ricardo Dias e Thomaz Farkas, SP, 2006

Em abril de 1954 Thomaz Farkas filmou, com uma câmera 16mm de corda, uma apresentação de Pixinguinha e o Pessoal da Velha Guarda, no parque do Ibirapuera em São Paulo, nos festejos do IV Centenário da cidade. Este material se perdeu e foi reencontrado 50 anos depois. O filme conta esta história e recupera o material.

Pixinguinha e a Velha Guarda do Samba

CRÍTICA

País musical, por Marcus Mello

A riqueza do patrimônio musical brasileiro, em especial o samba e a bossa nova, é o mote temático deste programa, que reúne sete curtas-metragens, realizados entre 1965 e 2006. Em Brasil (1981), Rogério Sganzerla documenta os bastidores da gravação do disco homônimo de João Gilberto, que contou com a participação de Caetano Veloso, Gilberto Gil e Maria Bethânia. Paralelamente, o diretor organiza um caleidoscópio de imagens, que incluem a passagem de Orson Welles pelo Brasil para as filmagens do inacabado It’s All True, além de performances de artistas como Grande Otelo, Ary Barroso, Dorival Caymmi e Eros Volúsia. Um genial rascunho para os três longas que Sganzerla depois dedicaria à frustrada experiência de Welles no país, Nem tudo é verdade (1986), Tudo é Brasil (1998) e O signo do caos (2003).

Álbum de música (1974), de Sérgio Sanz, retrata o “saudável caos” da música popular brasileira na primeira metade da década de 1970. Conduzido pelo jornalista Nelson Motta, o espectador vê desfilar diante da câmera um notável elenco de personalidades da MPB, em registros raros.
Carioca, suburbano, mulato, malandro – João Nogueira (1979), de Jom Tob Azulay, traça um perfil do popular sambista João Nogueira, morto em 2000. O diretor acompanha Nogueira em rodas de samba regadas a cerveja e mocotó e a visitas a músicos da velha guarda da Portela, sua escola do coração, além de registrar a gravação em estúdio do clássico samba “Súplica”. Um valioso documento sobre um compositor sofisticado, cuja contribuição para a música popular brasileira ainda está para ser devidamente reconhecida.
Heitor dos Prazeres (1965), de Antônio Carlos da Fontoura, mostra a grande arte do pintor e compositor, autor de clássicos como “Pierrô Apaixonado” e de telas que registraram o colorido do carnaval carioca. Em seu ateliê na Praça Onze, elegante como um dândi, o artista relembra seu passado. Realizado um ano antes da morte de Heitor, o curta foi fotografado por Affonso Beato, que reproduz as cores exuberantes das telas do artista com a mesma maestria mais tarde colocada a serviço do diretor espanhol Pedro Almodóvar.
Martinho da Vila Paris 1977 (1977), de Ari Candido Fernandes, documenta uma viagem do cantor e compositor Martinho da Vila à capital francesa. A invasão do samba brasileiro ao Quartier Latin é mostrada através de imagens e depoimentos saborosos de Martinho, neste curta que tem sua montagem assinada pelo crítico de cinema Inácio Araújo.
Em Noel por Noel (1981), Rogério Sganzerla presta tributo ao grande compositor da Vila Isabel, morto com apenas 26 anos de idade. A meteórica carreira de Noel é condensada ao longo de 10 minutos por Sganzerla, que exercita sua montagem dialética organizando documentos, fotos, manuscritos e imagens da musa do compositor, Ceci. Um belo ensaio para o longa que Sganzerla sempre sonhou em dirigir sobre Noel, e acabou morrendo sem concretizar.
O programa encerra-se com Pixinguinha e a velha guarda do samba (2006), de Ricardo Elias e Thomaz Farkas. O curta traz um raro registro de Pixinguinha, feito pelo próprio Farkas durante uma apresentação do grande compositor realizada em São Paulo, em abril de 1954, no Parque do Ibirapuera. Com a colaboração de Ricardo Dias, Farkas recupera esse material e relembra o dia em que filmou, absolutamente por acaso, esse mestre da música popular brasileira em ação.

Marcus Mello: Crítico de cinema gaúcho, é editor da revista Teorema (RS) e colaborador das revistas Aplauso (RS) e Cinética (RJ). Programador da Sala P. F. Gastal, cinema mantido pela Secretaria Municipal da Cultura de Porto Alegre.

serviço:
O Benedita Cineclube acontece no Espaço Cultural Sinhá Prado – Av. Virgílio de Melo Franco, 481 – Cambuquira-MG.

SAMBA E BOSSA NOVA – qui 20/01, 19h

Classificação 12 anos.

Duração: 78 min

Entrada gratuita!


Esta noite encarnarei no teu cadáver, de José Mojica Marins

junho 27, 2010

Dia 3 de julho, às 18h (novo horário), a sessão é dedicada ao Zé do Caixão no Benedita Cineclube.

Filme seminal da obra de José Mojica Marins, Esta noite encarnarei no teu cadáver é o segundo longa-metragem da saga de seu mítico personagem Zé do Caixão. A trilogia teve início em1964 com À meia noite levarei sua alma e encerrou-se 44 anos depois como filme Encarnação do demônio. Legítimo exemplar do gênero horror, vertente raríssima na cinematografia brasileira, o filme retoma o Zé do Caixão implacável na busca da mulher superior que possa gerar seu filho perfeito. Nessa trajetória, não tolerará qualquer obstáculo que o impeça de atingir seu objetivo maior: a “continuidade de seu sangue”. Mojica Marins mais uma vez demonstra pleno domínio da linguagem cinematográfica, apresentando neste filme alguns dos mais férteis momentos de invenção do cinema brasileiro, como a antológica cena do inferno gelado, que surge surpreendentemente colorida em meio ao preto-e-branco do restante do filme.

Sinopse

O funerário Jozefel Zanatas (Zé do Caixão) continua sua procura pela “Mulher Superior”, com a qual espera gerar o “Filho Perfeito”, ser que esteja acima dos seres humanos normais e que perpetue seu sangue. Em sua procura, tortura e mata as mulheres que julga inferiores, bem como qualquer um que se interponha em seu caminho.

Ficha Técnica

Direção e Roteiro: José Mojica Marins (Zé do Caixão)
Elenco: José Mojica Marins, Roque Rodrigues, Nádia Tell, William Morgan, Tina Wohlers, Nivaldo de Lima, Tânia Mendonça, Osvaldo de Souza, Arlete Brazolin, e Mina Monte
Empresa Produtora: Ibéria Filmes
Produção Executiva: Augusto Pereira de Cervantes
Direção de Produção: Antônio Fracari
Direção Fotografia: Giorgio Attili
Fotografia de Cena Autor: Elias Litaldi
Montagem/Edição: Luiz Elias
Direção de Arte e Cenografia: José Vedovato

Crítica

IMAGENS QUE FICAM: JOSÉ MOJICA E O CINEMA FANTÁSTICO, por Kleber Mendonça

Há uma noção divulgada popularmente de que a obra de José Mojica Marins atende pela palavra trash, no sentido de “mal-feito” e de “mau-gosto”. Os filmes do mito Zé do Caixão, no entanto, superam facilmente esse tipo de interpretação para ocupar, de fato, um lugar especial no cinema de gênero “horror”. Seus filmes são uma anomalia e tanto na produção mundial, e mais ainda na brasileira, terreno notoriamente infértil para esse tipo de cinema.
Começando precisamente onde À meia noite levarei sua alma(1964) terminou, Esta noite encarnarei no teu cadáver (1967) revela-se um dos mais sólidos exercícios em cinema, seja na já rica obra de Mojica Marins, seja na filmografia completa do cinema brasileiro.
Alguns poderão mencionar atuações mecânicas e recursos limitados de produção, critérios questionáveis que podem datar um filme que extrapola a própria época em que foi produzido, mas que aponta para uma noção atemporal de cinema. Os mesmos poderão concordar que estamos diante de uma coleção de imagens potentes que parecem se instalar no espectador, talvez o grande feito do cinema de horror, quem sabe do cinema como um todo. A mistura cultural que faz do Brasil terra árida para o gênero fantástico parece ganhar em Esta noite encarnarei no teu cadáver um ato de vingança desse cineasta visionário.
O estilo de Mojica, que parece estar filmando seus pesadelos pessoais e compartilhando-os conosco, ganha nessas imagens uma interpretação para a simples história do contraditório Zé do Caixão, assassino sádico e cético que odeia a raça humana – “mesquinha e sanguinária” –, mas que é um profundo admirador das crianças, salvo pelo fato de que um
dia crescerão.
Também peculiar é a sua relação com as mulheres, pois busca uma, em especial, que possa dar continuidade à sua herança. Curiosamente, a escolhida passa não apenas a sensação de que será a perfeita fêmea reprodutora, mas também uma companheira com quem ele poderá compartilhar sua visão anormal de mundo, um pouco como alguém que será capaz de entender o artista e sua obra. Para as outras mulheres, Zé lhes reserva aranhas e cobras, com algumas gotas de ácido concentrado no rosto como bônus.
Filmando de forma a sempre deixar claro o tamanho do seu ego, a presença de Mojica em seus filmes (incluindo o recente Encarnação do demônio, a sequência deste) é magnética, um Marquês de Sade muito brasileiro, carismático, que gera desconforto isoladamente, ou por acúmulo de barbaridades.
De qualquer forma, esse acúmulo não acrescentaria muita coisa se não percebêssemos uma visão singular criando tudo, algo comprovado por uma das sequências mais interessantes do cinema brasileiro, quando o filme abandona o preto-e-branco para chegar às cores de um inferno que não é quente, mas glacial. É uma sequência que eleva ainda mais o nível geral do filme, composto por ideias muito bem articuladas por Mojica Marins a partir de uma obra de qualidades raras no Brasil: o entretenimento autoral.

Fonte: programadora brasil

O Benedita Cineclube acontece no Espaço Cultural Sinhá Prado – Av. Virgílio de Melo Franco, 481 – Cambuquira-MG.
ESTA NOITE ENCARNAREI NO TEU CADÁVER – sáb, 3/6, 18h – classificação 16 anos.
Entrada gratuita.

TERRA ESTRANGEIRA, de Walter Salles e Daniela Thomas

junho 9, 2010

Terra Estrangeira é o próximo filme a ser exibido no Benedita Cineclube.

Sábado, 12/6 às 18h (novo horário!).

Terra Estrangeira é um filme cheio de sotaques,  não apenas lingüísticos, mas também cinematográficos. No princípio, é um drama naturalista centrado no cotidiano das personagens. Aos poucos evolui para o inferno existencial, na medida em que Paco e Alex se deslocam de suas bases. Mas de repente é um filme de gangster, e logo em seguida um road movie romântico e desesperado à maneira de Nicholas Ray. Todas essas “línguas” se encontram apenas no estilo sofisticado e coeso de enquadrar, iluminar e montar as imagens.” Carlos Alberto Mattos (crítica na íntegra no final deste post).

No início da década de 90, Fernando Collor, primeiro Presidente eleito pelo voto popular depois de 25 anos de regime de exceção, inicia seu governo promovendo o Plano Brasil Novo (conjunto de medidas para o combate da inflação). Os efeitos dessa política econômica são o ponto de partida de ” Terra Estrangeira” , filme de Walter Salles e Daniela Thomas. As perspectivas de um futuro incerto levava centenas de brasileiros a procurar uma única saída para a crise nacional, o aeroporto. E este foi o caminho que Paco, personagem de estréia de Fernando Alves Pinto, percorreu. Após o anúncio do Plano Collor ele vê a vida de sua mãe, Manoela, uma costureira espanhola que sonha em rever sua terra natal , destruída e, sem dinheiro, aceita entregar um pacote misterioso em Lisboa em troca do custeio de sua viagem. Ele perde a remessa e segue em fuga para a Espanha. Como que condenado a um constante deslocamento e sem qualquer esperança, o personagem de Paco permanece à deriva. Um exemplo perfeito dos orfãos de uma nação que aparentemente nunca irá acolhê-los. A trilha sonora de José Miguel Wisnick e a belíssima fotografia em preto e branco de Walter Carvalho contribuem para o clima noir que percorre todo o filme.

Sinopse

Brasil, 1990. Plano Collor é anunciado. Sem perspectiva em um país tomado pelo caos, Paco, um jovem de 20 anos de i dade, opta pelo exílio após a morte da mãe. Parte para Portugal, aceitando uma encomenda suspeita para a viagem. Em Lisboa, Alex, uma brasileira de 25 anos, acaba de deixar o namorado, envolvido na mesma teia de contrabando. Os destinos desses dosi jovens vão se aproximar, inexoravelmente, numa fuga desesperada…

Ficha Técnica

Direção: Walter Salles
Roteiro: Daniela Thomas, Walter Salles, Marcos Bernstein e Millôr Fernades
Elenco: Fernanda Torres, Fernando Alves Pinto, Luis Melo, Alexandre Borges, Laura Cardoso, João Lagarto, José Laplaine, João Grosso, Canto e Castro, Miguel Guilherme, Carlos Santos, Isilda Marques, Angelo Torres, José Antonio Pires, Miguel Hurst, Antônio Cara Dïanjo, Álvaro Livin, Felipe Ferrer, João Oliver, Alberto Alexandre, Manuel Mendes, Laert Sarrumor Sarrumor, Jaques Jover, Carlos Dias, Lulu Pavarini, Carla Lupi Lupi, D. Tina, Di Domênico, Miguel Athie, Pérsio Pisani, Mariana Lima, Joaquim Goulart, Cacá Ribeiro, Ludoval Campos, Gisela Arantes, Sonia Schulb, Geraldo Mário, Paulo Simões, Alberto Fuks, Eduardo Capozzi, Milah Ribeiro, José Paulo Rosa, Participação especial: Tcheky Karyo, Beth Coelho, Gerald Thomas, Edilson Botelho.” D. Tina, Di Domênico, Miguel Athie, Pérsio Pisani, Mariana Lima, Joaquim Goulart, Cacá Ribeiro, Ludoval Campos, Gisela Arantes, Sonia Schulb, Geraldo Mário, Paulo Simões, Alberto Fuks, Eduardo Capozzi, Milah Ribeiro, José Paulo Rosa, Participação especial: Tcheky Karyo, Beth Coelho, Gerald Thomas, Edilson Botelho.
Empresa(s) Co-produtora(s): Videofilmes e Animatógrafo
Produção Executiva: Flavio R. Tambellini
Direção de Produção: Maria João Mayer (Portugal) e Afonso Coaracy(Brasil)
Coordenação de Produção: Maria Carlota Fernandes e Marina Meireles
Assistente de Produção: Wellington Machado, Isabel Monteiro e Pedro Teixeira
Direção Fotografia: Walter Carvalho
Montagem/Edição: Walter Salles e Felipe Lacerda
Direção de Arte: Daniela Thomas
Técnico de Som Direto: Geraldo Ribeiro (BR), Carlos Alberto Lopes (Portugal)
Edição Som: José Luiz Sasso
Trilha Musical: José Miguel Wisnik

Prêmios

-Grande Prêmio do Público no Paris Internacional Film Forum, 1995 – FR.
-Prêmio APCA, 1995, SP, de Melhor filme.
-Melhor filme no Festival de Gramado, 23, 1995, RS.
-Margarida de Prata, 1996, RJ, da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil de Melhor Filme Nacional.
-Grande Prêmio do Público e Prêmio Especial do Júri no Festival de Belfort – FR.
-Grande Prêmio de Público no Festival de Bérgamo – IT.
-Karibu Award no Cinema Novo Festival – BE.
-Câmera de Prata no International Film Camara Festival – MK.
-Melhor Roteiro no Festival de Providence – US.
-Melhor Filme Ibero-Americano no Festival Cinematográfico Internacional do Uruguai – UY.

Crítica

Exílio na terra do cinema por Carlos Alberto Mattos

Quando Terra Estrangeira foi realizado, o Brasil estava sem cinema e sem “pai”. Tomava o país uma sensação de orfandade, de barco à deriva. Tínhamos virado uma nação de emigrantes, porto de saída para um exílio que não era mais o político da ditadura, mas o do desencanto de almas perdidas e sonhos adiados. Walter Salles e Daniela Thomas, depois de morarem no exterior, faziam o caminho inverso: fixavam carreira no Brasil e partiam em busca de uma identidade para o cinema brasileiro. Fizeram um filme sobre e contra o vácuo.

A relação com Portugal e Espanha, matrizes colonizadoras, sinaliza esse desejo contraditório de evasão rumo às origens. Alex e Paco saem em busca de si mesmos e encontram a terra do cinema, esse fim-de-mundo sem raízes onde se pode deslizar à vontade e trocar de gênero como quem troca de estrada. Eles são crianças que saem de casa para brincar de adultos no país do cinema, empunhar armas, correr perigo e fazer poesia ao mesmo tempo. Em lugar da clássica rebeldia, apenas o abandono, uma vaga disposição para “enfrentar a ira do trovão”. Igualados em suas perdas e na sensação de não pertencer a lugar nenhum, Paco e Alex têm o movimento contínuo como único destino. São puro cinema, sem lenço nem passaporte.

Terra Estrangeira é um filme cheio de sotaques, não apenas lingüísticos, mas também cinematográficos. No princípio, é um drama naturalista centrado no cotidiano das personagens. Aos poucos evolui para o inferno existencial, na medida em que Paco e Alex se deslocam de suas bases. Mas de repente é um filme de gangster, e logo em seguida um road movie romântico e desesperado à maneira de Nicholas Ray. Todas essas “línguas” se encontram apenas no estilo sofisticado e coeso de enquadrar, iluminar e montar as imagens.

Com seus sotaques ora de teatro, ora de videoarte, ora do neo-noir pós-moderno, Terra Estrangeira ajudou a tornar o cinema brasileiro mais contemporâneo em sua época. Ao discurso nacional-popular do Cinema Novo contrapôs uma novíssima pauta internacional-fina sem, contudo, abdicar da reflexão sobre a condição brasileira. Enquanto o termo “terra” evocava uma constante em filmes de Glauber Rocha, o adjetivo “estrangeira” apontava para as idéias de exílio, alteridade e globalização.

O filme antecipou elementos que se tornariam freqüentes na obra de Walter Salles. Entre eles, a ausência do pai, a inversão da imagem da Pietá (que voltará em Central do Brasil), a estrutura do road movie e a presença simbólica do mar e da água (O Primeiro Dia, Abril Despedaçado, Diários de Motocicleta, Água Negra).

Apesar do desfecho trágico, a noção de redenção tampouco está ausente, aqui sob a forma de uma crescente aproximação entre Brasil e Portugal. Esses espaços, inicialmente confinados por letreiros, vão perdendo distância pelas justaposições da montagem, a música do violino e imagens poéticas como a das fotos “navegando” na água do banheiro. É por meio da linguagem do cinema que Terra Estrangeira reconstrói pontes e sutura o vácuo.

O Benedita Cineclube acontece no Espaço Cultural Sinhá Prado – Av. Virgílio de Melo Franco, 481 – Cambuquira-MG.

Terra Estrangeira – sáb, 12/6, 18h – classificação 16 anos.

Entrada gratuita.



VIDA DE MENINA, dir. Helena Solberg, BRASIL-RJ, 2005

maio 6, 2010

No próximo sábado, 8 de maio, às 16h00 o Benedita Cineclube exibe VIDA DE MENINA, de Helena Solberg. Classificação livre.

O longa-metragem é uma adaptação dos diários de Helena Morley, pseudônimo de Alice Dayrell Caldeira Brant. Sob a perspectiva dessa menina de 13 anos, o filme exibe um panorama intimista da vida cultural e familiar da cidade de Diamantina em seu período de decadência econômica nos fins do século XIX. Sentimental, mas sem concessões à pieguice, Vida de menina não é apenas um grande filme de época, repleto de cenas marcantes e bem realizadas, mas também o resgate de uma importante obra literária que encantou personalidades como Guimarães Rosa e Elizabeth Bishop.

Vida de menina acompanha três anos (1893-1895) da vida da adolescente Helena, em um momento crítico de sua vida, quando começa a lutar para conquistar sua liberdade e integridade. Tendo como pano de fundo um Brasil que acaba de abolir a escravatura e proclamar a República, a jovem começa a escrever o seu diário, revelando seu universo e um país que adolesce junto com ela. É nesse diário que Helena debocha e desmascara as pretensas virtudes alheias, procurando não perder sua alegria infantil de viver e reinventando o mundo à sua maneira.

TRAILER

CRÍTICA

Questionando um país jovem e contraditório

por Neusa Barbosa

A crônica cotidiana de um país que acaba de proclamar a República mas disfarça mal a opressão de sua grande população negra, apesar da abolição formal da escravidão, salta das páginas do diário de Helena Morley, pseudônimo literário de Alice Dayrell Caldeira Brant, que é a protagonista por trás do livro Minha vida de menina – O diário de Helena Morley (Companhia das Letras, 1998). Escrito entre 1893 e 1895, e admirado por escritores como Guimarães Rosa e Carlos Drummond de Andrade, o texto inspira Vida de menina, primeiro filme de ficção da documentarista Helena Solberg, que tão criativamente radiografou a figura de Carmem Miranda em Bananas is my business (1995).
Quase 110 anos transcorreram entre a escritura do livro, publicado pela primeira vez em 1942, e o filme de 2004, que traduz a notável permanência de tantos dilemas da adolescência e da condição feminina, independente de tempo e lugar. A menina Helena revela-se uma contestadora cujo espírito a Diamantina provinciana, carola, isolada, moralista e decadente de sua época não conseguem aprisionar.
No contexto de um país em transição naquele final do século 19, aparentemente nada acontecia na cidade mineira, tão ignorante da recente descoberta do cinema quanto da Teoria da Evolução de Charles Darwin. A modorra reflete o esgotamento da mineração de ouro e diamantes, que já garantira a riqueza da região, mas que agora decreta a falência de Alexander Morley (Dalton Vigh), o pai da menina, obcecado em extrair ainda algum resultado de uma lavra estéril.
Na resignação silenciosa da mãe, Carolina (Daniela Escobar), a essa insana obstinação do marido e também ao domínio do irmão Geraldo (Camilo Bevilácqua) nos negócios da família materna, Helena flagra a posição subalterna das mulheres, de que ela intuitivamente se ressente. Como também identifica as contradições que cercam a posição social dos negros em seu ambiente. Ex-escravos, eles continuam agregados na grande casa da avó, Teodora (Maria de Sá), nominalmente livres, mas cidadãos de segunda classe, até espiritualmente. O pai de Helena garante-lhe que, depois da morte, ela não irá para o “céu dos africanos”. Em sua visão, a separação por raças contamina a alma e prossegue, irredimível como um pecado original, até depois da vida.
Um Brasil jovem e contraditório, encharcado dessas violências sociais e conflitos nunca resolvidos, encontra eco nessa menina se tornando mulher, que a tudo olha com curiosidade, acumulando em seu diário não observações sociológicas, certamente, mas reflexões sinceras de um coração descompromissado que anunciam uma pré-feminista. Um diário que é, aliás, uma espécie de antecipação do blog atual, território que tem se mostrado apto a essa mesma espontaneidade juvenil.
A própria herança cultural inglesa – Helena é neta de um médico britânico – torna-se para ela outro foco de desequilíbrio e choque. As lições de etiqueta da tia Madge (Loló Souza Pinto), e suas instruções de como andar pelas ruas de terra batida portando uma sombrinha para evitar o sol, reforçam o sentimento de inadequação. E são também um retrato vivo do confronto entre uma cultura europeia resistente a abrir mão de seus preconceitos e penduricalhos e o desconfiado despojamento caipira do Brasil rural de mais de um século atrás.

 

FICHA TÉCNICA

Direção: Helena Solberg
Roteiro: Elena Soárez, Helena Solberg
Elenco: Ludmila Dayer, Daniela Escobar, Dalton Vigh, Camilo Bevilacqua, Lígia Cortes, Maria de Sá, Lolô Souza Pinto, Benjamin Abras, Luciano Luppi
Empresa Produtora: Radiante Filmes Ltda.
Produção: David Meyer
Produção Executiva: David Meyer
Direção de Produção: Marcelo Ferrarini
Direção Fotografia: Pedro Farkas
Operador de Câmera: Rodrigo Toledo
Iluminador: Pedro Farkas
Fotografia de Cena : Beatriz Perrella
Montagem/Edição: Diana Vasconcellos
Estúdio Montagem/Edição: Afinal Filmes
Direção de Arte: Roberto Mainieri
Cenografia: Roberto Mainieri
Figurino: Marjorie Gueller
Produção de Arte: Luciana Lamounier
Maquiagem: Lu de Moraes
Cabeleireiro: Bob Paulino
Técnico de Som Direto: Paulo Ricardo Nunes
Edição Som: Filmosonido
Mixagem: Filmosonido
Estúdio Som: Filmosonido
Autor da Trilha: Wagner Tiso
Descrições das Trilhas: Panis Agelicus, Jardim Secreto, Flor do céu Biribiri, Luizinha, Carnaval e Castelos, Sinos, Laschia qu’io Pianga (Handel), É a ti, flor do céu

Fonte: Programadora Brasil

BETE BALANÇO

abril 4, 2010

No próximo sábado, dia 10 de abril, sempre às 16h, o Benedita Cineclube exibe Bete Balanço.

O longa-metragem de estréia de Lael Rodrigues é o primeiro de uma trilogia composta por Rock Estrela e Rádio Pirata deu voz a geração oitentista do rock nacional: Barão Vermelho, Lobão, Banda Brylho, Manhas e Manias, Celso Blues Boy e Metralhatxeka. Cultuado na época do seu lançamento por um público sedento por consumir rock numa era pré-MTV e anterior à popularização do vídeo-clipe, o filme é conduzido pela batuta musical de Irapuã Jardim (direção de gravação) e Roberto de Carvalho (mixagem). Além da cena musical brasilera da chamada “década perdida”, o filme recupera também imagens da cidade do Rio de Janeiro pós-ditadura e pós-desbunde que marcaram os anos 80. A capital carioca é apresentada como um cartão postal que ultrapassa o fundo para as ações dos personagens e se apresenta como uma verdadeira personagem da trama.

SINOPSE

Bete é uma garota de Governador Valadares, recém aprovada no vestibular e cantora eventual do bar da cidade. Liberada na relação sexual com o namorado, curte teatro e sonha com um espaço maior para o seu prazer, na batalha do trabalho e da vida. A música atrai Bete para o Rio de Janeiro, pouco antes de completar 18 anos. Tudo o que experimenta, então, é uma inevitável sucessão de coisas boas e más.

O filme tem no elenco Débora Bloch, Lauro Corona, Maria Zilda, Diogo Vilela, Hugo Carvana, Arthur Muhlenberg, Jessel Buss, Duse Nacarati, Eleonora Rocha, Marcus Vinicius, Cláudio Moreno, Andréa Beltrão, Cláudio Baltaf, Lobão e os Ronaldos, Metralhatxeca e Celso Blues Boy.

Participação especial: Maria Zilda, Cazuza e Barão Vermelho.

FICHA TÉCNICA

Título: Bete Balanço
Duração: 72 min e 0 seg.
Ano: 1984
Cidade: Rio de Janeiro UF(s): RJ País: Brasil
Gênero: Ficção / Subgênero: Suspense

Classificação indicativa: 14 anos

EQUIPE

Direção: Lael Rodrigues
Roteiro: Lael Rodrigues e Yoya Wurch
Empresa(s) Co-produtora(s): CPC – Centro de Produção e Comunicação Ltda.
Produção: Carlos Alberto Diniz
Produção Executiva: Tizuka Yamazaki
Direção de Produção: Walter Schilke
Direção Fotografia: Edgar Moura
Montagem/Edição: Lael Rodrigues
Direção de Arte: Yurika Yamasaki
Trilha original: Cazuza e Roberto Frejat

“Quem tem um sonho não dança”
por Glênio Nicola Povoas.

Mesmo com um roteiro simples, este é um dos raros filmes brasileiros a buscar diálogo com público na faixa dos 18 anos, e por isso foi muito importante para os jovens da época. A trama melodramática apresenta alguns temas com sensibilidade, como a homossexualidade, na relação entre Bete e Bia; ou a do amigo Paulinho. Também procura engajamento social com a história das fotos do linchamento num Brasil pós-Abertura. Bete Balanço funciona também como espelho da geração 80 e seus modismos, expressões, desejos, sonhos.

Débora Bloch interpreta o papel-título. Este foi o seu segundo filme; antes trabalhou em Noites do Sertão (1984). Por sua participação nos dois foi escolhida a melhor atriz de 1984 pela Associação Paulista de Críticos de Arte (APCA). Lobão, que naquela época era acompanhado d’Os Ronaldos, aparecem cantando “Me chama”. E o Barão Vermelho participava em sua formação original: Cazuza – voz, Roberto Frejat – guitarra, Dé – baixo, Guto – bateria, Maurício Barros – teclado. Cazuza também é ator do filme, interpretando o personagem Tininho, e com Frejat compôs especialmente duas canções para o filme: “Bete Balanço” e “Amor, Amor”, dois sucessos instantâneos, lançados em compacto simples (Som Livre) três meses antes da estréia do longa; a trilha completa saiu em LP (Som Livre, 1984).

O diretor Lael Rodrigues, paulistano de nascimento (1951), era mineiro de criação. Estudou arquitetura na Universidade de Brasília e cinema na Universidade Federal Fluminense. Da sociedade com Tizuka Yamasaki, Carlos Alberto Diniz, José Frazão e Mendel Rabinovich criou o CPC – Centro de Produção e Comunicação – que vai produzir filmes como J. S. Brown, o Último Herói (1978, Frazão) e Patriamada (1985, Yamasaki). Foi diretor de diversos curtas-metragens desde 1973. Montador de Se segura malandro (1978) e Bar Esperança (1983), ambos de Hugo Carvana ou de Gaijin, Caminhos da Liberdade (1980) e Parahyba Mulher Macho (1983), ambos de Yamasaki. Assina também a montagem de seu longa de estréia, Bete Balanço, grande sucesso de público desde o lançamento no Rio de Janeiro em 30 de Julho de 1984. Lael Rodrigues faleceu em 1989.

Fonte: Programadora Brasil


Houve Uma Vez Dois Verões e O Diário Aberto de R.

março 15, 2010

Os filmes da próxima sessão do Benedita Cineclube (sáb, 20/3, 16h) são Houve Uma Vez Dois Verões, e O Diário Aberto de R.

Houve Uma Vez Dois Verões é o longa-metragem de estréia de Jorge Furtado, cineasta gaúcho que além de vários curtas de destaque nos anos 80 e 90, dirigiu também O Homem Que Copiava (2003), Meu Tio Matou Um Cara (2004) e Saneamento Básico, o filme (2007).

Assista no site porta curtas o seu curta-metragem mais premiado

Ilha das Flores, Jorge Furtado, Doc/Exp, 1989, 13 min

http://www.portacurtas.com.br/pop_160.asp?cod=647&Exib=1

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Houve uma Vez Dois Verões, de Jorge Furtado

BRASIL – RS, 2002, ficção, 75 min. – classificação 12 anos

SINOPSE

Ele é um rapaz ingênuo em busca do primeiro amor. Ela está guardando dinheiro para viajar para a Austrália.

Juntos, eles vão viver uma grande paixão. Se você acredita na força do destino, no poder do amor e nas sinopses dos filmes, vai ter algumas surpresas.

Direção: Jorge Furtado
Roteiro: Jorge Furtado
Empresa(s) Co-produtora(s): Casa de Cinema de Porto Alegre
Produção Executiva: Luciana Tomasi e Eleonora Goulart
Direção de Produção: Marco Baioto e Débora Peters
Direção Fotografia: Alex Sernambi
Montagem/Edição: Giba Assis Brasil
Direção de Arte: Pierre Olivè
Figurino: Rô Cortinhas
Técnico de Som Direto: Cristiano Scherer
Edição Som: Cristiano Scherer
Mixagem: Luiz Adelmo
Trilha Musical: Sim
Trilha Original: Não
Descrições das Trilhas: Trilha Musical: Leo Henkin

***

Caetano Gotardo é um jovem cineasta paulista. Entre este e outros trabalhos, pode-se destacar o curta Areia, por ter sido exibido na abertura da Semana da Crítica/Festival de Cannes em 2008.

O Diário Aberto de R., de Caetano Gotardo

dir. Caetano Gotardo, BRASIL – SP, 2005, ficção, 14 min. – classificação 10 anos.

SINOPSE

Rafael dorme. Rafael espera. Rafael abraça. Rafael deita. Rafael chora.

Direção: Caetano Gotardo
Roteiro: Caetano Gotardo
Elenco: Fábio Lucindo, Marco Pigossi, Thays Alves, Gustavo Nobre, Lilian Blanc
Produção Executiva: Marco Dutra
Direção de Produção: Marco Dutra
Direção Fotografia: Chica San Martin
Fotografia de Cena: Não
Direção de Arte: Milena Durante
Figurino: Milena Durante
Técnico de Som Direto: Daniel Turini
Sound Designer: Daniel Turini
Trilha Musical: Não
Trilha Original: Não
Descrições das Trilhas: Robert Schumann Interprete: Marco Dutra

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sobre a sessão de 20/3

CRÍTICA

CORAÇÕES JOVENS E TRANQÜILOS, por Rodrigo de Oliveira

Os adolescentes no centro de Houve uma vez dois verões e O diário aberto de R. dividem uma mesma crença. E faz tanto sentido que sejam justo adolescentes, todos eles a um passo daquela experiência definitiva que torna a infância mais distante e a vida adulta tão inevitavelmente mais próxima. Não só Chico e Caio, os dois protagonistas, mas também seus diretores, Jorge Furtado e Caetano Gotardo, parecem acreditar nessa mesma coisa, e devotam seus filmes a defendê-la. Isso que só a sinceridade de quem está vivendo tudo pela primeira vez pode redimir de qualquer ridículo, em tempos tão descrentes como os atuais. Temos aqui dois filmes de amor, e que dele fazem sua profissão de fé.

A ameaça da desafeição, esse mal tão contemporâneo, não poderia passar ao largo. Ela é, em graus diferentes, a grande força-motora dos filmes. Em O diário aberto de R., estamos lidando com a distância mantida entre dois amigos colegiais, capazes de demonstrar carinho num dia, e no seguinte se tratarem com um quase repúdio. Houve uma vez dois verões é mais explícito, e planta no meio de seu romance uma figura anti-romântica por excelência, aquela que troca sonhos de felicidade por dinheiro, conseguido com uma falsa gravidez. Roza agrega ao filme valores insuspeitos nesta que parecia a história de amadurecimento de Chico através de um primeiro amor. Onde havia a lua encantadoramente fake, iluminando a primeira transa na praia, sobra a mercantilização do sentimento. A resposta a esses revezes precisa ter força igual ou maior. Aí entram esses dois diretores apaixonados: por seus personagens e pela própria idéia da resistência do sentimento.

Talvez não exista paralelo no cinema brasileiro de um filme que tenha sabido captar tão bem os humores da adolescência como Houve uma vez dois verões. Vai ver porque não capte mesmo – e sob essa idéia de se conseguir “pescar a juventude” se tenham feito tantos filmes sobre seu protótipo, cheias de clichês emocionais e gírias de almanaque. Furtado faz seu primeiro longa-metragem deixar de ser veículo e passar a ser, ele próprio, uma manifestação da juventude. Isso está expresso desde a escolha do suporte de gravação, o vídeo digital (mídia ainda menina em relação à velha película). Mais que isso, na incorporação do repertório visual dos fliperamas e pinballs, que dão o tom desse jogo de erros-e-acertos em que se transforma a jornada de Chico atrás da garota que lhe extorquiu, mas por quem não consegue evitar “gostar um monte”. Até mesmo a belíssima trilha sonora do filme parece vir dos temas desses joguinhos, dando um tratamento harmônico a sua habitual barulheira.

Tudo ali está armado para que os jovens possam acontecer enquanto tais, sem qualquer freio a seu despertar para a vida. O curta-metragem do igualmente jovem Caetano Gotardo abriga uma ambigüidade bastante curiosa neste sentido, equilibrando a experiência íntima de um diário que é, no entanto, mantido abertamente por Caio, com suas confidências sendo escritas na carteira da sala de aula, ao alcance de qualquer um. Era disso, no fundo, que os dois filmes queriam se impregnar: dessa exposição, desse peito-aberto da juventude. E assim eles se mostram, como no longo e tateante diálogo entre Chico e seu melhor amigo, logo após a primeira transa, tão comicamente honesto, ou ainda quando Caio nos revela o sonho em que ouvia finalmente de Rafael que a recíproca de sua paixão era verdadeira. O final feliz não é mais do que uma retribuição a tamanha entrega. Furtado reúne o casal romântico. Gotardo não precisa (e nem poderia) chegar a tanto. Mas crava na carteira escolar, a golpes de compasso, uma lição válida para os dois filmes: o amor permanente, profundo, que não se apaga com borracha.

* Rodrigo de Oliveira é crítico de cinema, redator e co-editor da Revista Contracampo e colunista do jornal capixaba Século Diário.

(fonte: Programadora Brasil)

primeira sessão: Cinema, Aspirinas e Urubus

março 1, 2010

Cinema, Aspirinas e Urubus foi escolhido como filme de estréia do Benedita Cineclube, e será exibido no próximo sábado, 6 de março, às 16h. Aqui você encontra mais informações sobre o filme e sobre outros trabalhos do diretor Marcelo Gomes.


Cinema, Aspirinas e Urubus, de Marcelo Gomes
BRASIL – PB/PE, 2005, ficção, 101 min.

O longa-metragem recebeu mais de 40 prêmios em festivais nacionais e internacionais. Teve sua estréia mundial no Festival de Cannes/França, na mostra “Um Certo Olhar”, onde recebeu o “Prêmio da Educação Nacional”, criado pelo Ministério da Educação Nacional, que prevê a distribuição do filme, através de um DVD pedagógico, para aproximadamente um milhão de estudantes franceses.

Sinopse:

1942. No meio do sertão nordestino, dois homens se encontram: Johann, um alemão que fugiu da Guerra, e Ranulpho, um brasileiro que quer escapar da seca que assola a região. Viajando de povoado em povoado, eles exibem filmes para pessoas que já haviam conhecido o cinema, para vender um remédio “milagroso”. Continuando a cruzar as estradas empoeiradas de um sertão arcaico, eles buscam novos horizontes em suas vidas. Nesta jornada, os dois aprendem a respeitar as diferenças e surge entre eles uma amizade incomum, mas que marcará suas vidas para sempre.

Ficha Técnica (fonte: Programadora Brasil)

Direção: Marcelo Gomes

Roteiro: Marcelo Gomes, Paulo Caldas, Karim Aïnouz
Elenco: Peter Ketnath, João Miguel, Hermila Guedes, Oswaldo Mil, Fabiana Pirro, Verônica Cavalcanti, Fernando Teixeira, Zezita Matos, Paula Francinete, Daniela Câmera, Irandhir Santos, Nanego Lira, Cláudio Nascimento
Empresa(s) Co-produtora(s): REC Produtores Associados Ltda
Produção Executiva: Maria Ionescu E João Vieira Jr.
Direção de Produção: Dedete Parente Costa
Direção Fotografia: Mauro Pineiro JR., ABC
Montagem/Edição: Karen Harley
Direção de Arte: Marcos Pedroso
Figurino: Beto Normal
Técnico de Som Direto: Márcio Câmara
Edição Som: Beto Ferraz
Descrições das Trilhas: Tomaz Alves Souza

Trailer

Crítica

por Eduardo Valente na Contracampo – Revista de Cinema

A melhor maneira de descrever seu impacto é afirmar que Cinema, aspirinas e urubus está fadado a ser um filme-paradigma no cinema brasileiro recente. Divisor de águas a partir do qual uma determinada condescendência não pode mais ser permitida, o filme de estréia de Marcelo Gomes em longa-metragem é um corpo absolutamente estranho e sem par no cinema nacional atual. Na verdade, ele flutua sobre este cinema como um espectro que amedronta pela capacidade de pôr às claras aquilo que tentava ser empurrado para baixo do tapete. É filme que não só afirma suas próprias qualidades, como ao fazê-lo revela aos outros suas insuficiências. Isso se dá, acima de tudo, por uma aposta tocante do filme nas possibilidades da ficção cinematográfica, da fabulação. A história de Johann e Ranulpho, espécie de buddy movie pelas estradas do sertão, comove exatamente pelo fato de seu registro apostar tão fortemente na verdade daquela construção ficcional. “Verdade” entendida aqui nem como verossimilhança, nem como “naturalismo”, e sim pelo sentido que realmente importa numa fabulação: a crença do próprio narrador (o cineasta) naquilo que nos narra. O filme acredita, o tempo todo, na verdade daqueles dois homens e no trajeto deles, e por isso mesmo nos faz aceitar o seu relato desde cedo.

continue lendo essa crítica no seu site original:

http://www.contracampo.com.br/75/cinemaaspirinas.htm

Mais impressões sobre o filme no site Cineclick por Angélica Brito:

http://cinema.cineclick.uol.com.br/criticas/ficha/filme/cinema-aspirinas-e-urubus/id/1128

A Revista Cinética entrevistou o diretor Marcelo Gomes sobre seus projetos após Cinema, Aspirinas e Urubus e os processos de produção (setembro/08).

http://www.revistacinetica.com.br/entmarcelogomes.htm

“Viajo porque preciso, volto porque te amo” é o trabalho mais recente de Marcelo Gomes, em parceria com Karim Aïnouz. Leia sobre:

Site Omelete, por Érico Borgo

“(…) por um lado é um típico filme-de-estrada… acompanha uma jornada tanto física quanto emocional. Por outro, é absolutamente inovador. (…)”

na íntegra: http://www.omelete.com.br/cine/100022976/Critica__Viajo_Porque_Preciso__Volto_Porque_Te_Amo.aspx

Jornal O Globo, texto do leitor Vinícius Esperança Lopes

“(…)”Viajo” é genial. Um sopro de vida. É ligar o rádio aleatoriamente e encontrar a música favorita. Saímos machucados, tontos, apaixonados…

na íntegra: http://oglobo.globo.com/cultura/festivaldoRio2009/mat/2009/09/28/eu-bonequinho-assistiu-viajo-porque-preciso-volto-porque-te-amo-767811067.asp